A geopolítica dos medicamentos – CEE Fiocruz-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

13/04/2026


A disponibilidade de medicamentos poderá se tornar uma das grandes disputas estratégicas do século XXI. Em 6 de junho de 1944, o desembarque na Normandia marcou um ponto de virada na história contemporânea. O Dia D abriu a Frente Ocidental e acelerou o desfecho da Segunda Guerra Mundial. O próximo Dia D, contudo, provavelmente não será um evento espetacular ou militar. Poderá se manifestar como uma interrupção logística no fornecimento de insumos estratégicos. Nesse cenário, garantir a disponibilidade de medicamentos torna-se fator decisivo para a segurança e a estabilidade das nações.

A ameaça que não vimos chegar

Tudo indica que uma das disputas geopolíticas mais significativas do século XXI girará em torno da disponibilidade de medicamentos. Ao contrário de insumos como semicondutores, o setor farmacêutico tem sido abordado por décadas como um problema técnico ou comercial, e não como um centro de poder global. No entanto, por trás de sua produção, regulamentação e distribuição, existem dependências, assimetrias de poder e instrumentos de influência. Pensar a geopolítica dos medicamentos envolve analisar precisamente essas dinâmicas. Essa abordagem conecta três níveis que quase nunca são analisados ​​em conjunto: a economia política que define as regras do jogo, a seleção racional que força a priorização dos medicamentos que realmente importam e a logística territorial que determina se esses medicamentos chegam ou não a quem precisa deles.

A geopolítica contemporânea dos medicamentos estrutura-se em torno de um paradoxo: embora os genéricos garantam o acesso diário aos tratamentos, sua produção depende de cadeias de suprimentos globais cada vez mais concentradas. Enquanto os profissionais de saúde pública se preocupam com o impacto de novos medicamentos de alto custo, a maior ameaça reside em uma potencial interrupção no fornecimento de medicamentos mais antigos e baratos. Propomos duas hipóteses para analisar essa crescente ameaça. Primeira hipótese: A disponibilidade de medicamentos como fator decisivo para a sustentabilidade dos governos. O consumo global de medicamentos está em constante crescimento, impulsionado pelo envelhecimento da população, doenças crônicas e pela medicalização da vida. As interrupções de tratamento não são mais um problema clínico individual, mas sim um fator de instabilidade coletiva. Em países de baixa e média renda, a escassez enfraqueceu os governos, como na África do Sul com os antirretrovirais ou na Venezuela com a escassez de insulina. Em nações de alta renda, como França e Reino Unido, a escassez também se tornou politizada, afetando a governança. Os medicamentos se tornaram uma mercadoria politicamente insubstituível.

Segunda hipótese: A hegemonia da China na produção dos princípios ativos que sustentam a saúde global. Os sistemas de saúde têm se concentrado em como financiar medicamentos monopolistas, enquanto o fornecimento de genéricos foi terceirizado para o Oriente. Embora a Índia seja a maior produtora de genéricos acabados (14% do total global), 40% do fornecimento global depende de princípios ativos farmacêuticos (APIs) chineses, uma proporção que chega a 80% para antibióticos essenciais. Esse controle de insumos críticos confere à China um imenso poder estrutural. O Ocidente enfrenta uma vulnerabilidade estratégica: se a China restringisse as exportações de IFA [Ingredientes Farmacêuticos Ativos] para antibióticos, haveria escassez em questão de semanas em mercados como os Estados Unidos, onde sete em cada dez pessoas usaram antibióticos em 2022. Nesse ponto, a saúde global deixaria de depender exclusivamente de médicos e hospitais, e de quem controla os insumos invisíveis da química farmacêutica.

O campo de batalha logístico: quando uma guerra distante atinge sua farmácia

Essa vulnerabilidade não é teórica. Um conflito como o que envolve o Irã demonstra como a geopolítica impacta a saúde pública, mesmo em regiões distantes como a América Latina. A interrupção das rotas comerciais no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz, uma via navegável fundamental para o transporte marítimo, atrasa e aumenta o custo de produtos farmacêuticos. Muitos medicamentos genéricos fabricados na Índia dependem de IFA e rotas que cruzam essa região. As consequências diretas, de acordo com reportagens e análises de organizações como a Direct Relief, são atrasos nas entregas, aumento dos custos de transporte e seguro e pressão financeira insustentável sobre os sistemas de saúde. A guerra eleva o preço do petróleo, aumentando o custo de fertilizantes e outros derivados químicos essenciais para a indústria farmacêutica. Isso não apenas afeta a ajuda humanitária e as campanhas de vacinação, mas ameaça interromper a produção de antibióticos, analgésicos e tratamentos cardiovasculares dos quais milhões de pessoas dependem. Para a América Latina, o impacto é indireto, mas real: custos mais altos e possível escassez, caso o conflito continue.

Poder, Saúde e Território

Assim como aconteceu com o carvão no século XIX ou com o petróleo no século XX, a natureza estratégica dos medicamentos só é percebida quando seu fornecimento deixa de ser dado como certo. A geopolítica dos medicamentos revela uma profunda transformação do poder. O acesso à saúde não depende mais apenas da inovação ou dos gastos, mas de estruturas de produção concentradas e frágeis. Os Estados têm focado sua atenção no controle dos gastos com produtos monopolistas, enquanto delegam o fornecimento de insumos básicos ao mercado global. No entanto, o verdadeiro calcanhar de Aquiles da saúde pode estar na disponibilidade daqueles componentes críticos que, embora baratos e consolidados, sustentam a maior parte do nosso acesso diário à saúde. A segurança sanitária no século XXI exige um novo mapeamento do poder, que compreenda que a soberania também é defendida em rotas marítimas, em fábricas de produção de IFA e na capacidade de garantir que o tratamento certo chegue à pessoa certa no momento certo.

*Alejandro Svarch é  médico e dirigente público e  dirige o IMSS-Bienestar, Cidade do México; Federico Tobar, é bacharel em Ciências, mestre em Administração Pública e PHD em Ciências Políticas, assessor de Financiamento Sustentável do Fundo de População das Nações Unidas, Nairóbi, Quênia.
Texto original publicado em espanhol no jornal La Jornada, do México, em 9 de abril de 2026. Tradução: Sebastian Tobar.



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