‘A implementação do mosquito modificado está realmente reduzindo a incidência da dengue’, diz cientista brasileiro destaque na Nature-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

27/01/2026

Como um cavalo de Troia, Aedes aegypti modificados para carregarem uma bactéria chamada Wolbachia, que impede a replicação dos vírus da dengue, zika e chikungunya, têm se disseminado em cidades brasileiras e, aos poucos, substituído as populações antigas dos mosquitos.

O resultado é surpreendente: alguns anos após a implementação, os novos Aedes, apelidados de Wolbitos, levaram à redução de quase 90% dos casos de dengue no município de Niterói, no Rio de Janeiro, primeira cidade 100% coberta pela estratégia no país.

Desde 2012, o Brasil é líder global na expansão do método, fruto de uma parceria entre o World Mosquito Program (WMP) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). E o brasileiro à frente do projeto, Luciano Moreira, foi reconhecido como um dos 10 cientistas mais influentes no mundo de 2025 pela prestigiosa revista científica Nature.

Ao GLOBO, Moreira, que é diretor-presidente da Wolbito do Brasil, uma joint venture criada entre o WMP e a Fiocruz, e pesquisador licenciado do Instituto René Rachou/Fiocruz, fala sobre o reconhecimento, a expectativa de ampliação do Wolbachia no Brasil e a alta demanda por estratégias de controle da dengue.

Como foi receber a notícia de que estaria na lista da Nature e qual é a importância de termos um brasileiro e um trabalho sobre a dengue entre os reconhecidos?

Foi uma surpresa muito grande, mas foram mais de 10 anos de trabalho no Brasil. A dengue é uma doença que afeta muitos países, mas aqui principalmente. Tivemos uma epidemia recorde em 2024. Então acredito que fez sentido pela realidade de ser algo muito atual, com impactos internacionais e que temos um papel fundamental.

O senhor é formado em engenharia agrônoma, como surgiu esse interesse por mosquitos?

Sempre gostei de insetos e trabalhei com controle biológico. Durante a universidade, fiz bastante pesquisa na área voltada para a questão agrícola. Mas foi no meu primeiro pós-doutorado que tive a oportunidade de trabalhar com mosquitos, nos Estados Unidos, onde fiquei quatro anos e meio estudando a interação entre eles e a malária.

Lá, usávamos mosquitos transgênicos, em que a ideia era expressar um gene para bloquear o parasita dentro dele. Quando voltei, em 2002, entrei como pesquisador na Fiocruz e fiquei cerca de seis anos trabalhando nessa área. Em 2008, fui para a Austrália trabalhar no laboratório do Scott O’Neill, que é o CEO do WMP. Ele já tinha um grupo tentando há anos colocar a Wolbachia no Aedes aegypti.

Foi quando descobrimos que a Wolbachia estava bloqueando a dengue e os outros vírus que o mosquito transmite. Ao voltar para o Brasil, em 2010, comecei um pequeno núcleo na Fiocruz para trazermos o programa para cá. Demorou anos para conseguirmos todas as aprovações regulatórias, mas conseguimos trazer o projeto para o país.

O que é o método Wolbachia?

A Wolbachia é uma bactéria muito comum na natureza, cerca de 60% dos insetos têm ela naturalmente. Mas ela nunca foi encontrada no Aedes aegypti. O Scott O’Neill tinha uma cepa dela que reduzia pela metade o tempo de vida do mosquito, então no início a ideia era introduzir no Aedes para ele viver menos e não conseguir transmitir.

Mas, quando vimos que a Wolbachia estava bloqueando o vírus dentro da célula, essa se tornou a frente mais importante. Hoje, inserimos a bactéria nos mosquitos e, conforme eles vão sendo liberados, vão cruzando com os ali existentes e, com isso, as fêmeas vão passando a bactéria para todos seus descendentes e temos aumento na prevalência de mosquitos com Wolbachia. Depois de um tempo, isso se torna autossustentável, ou seja, eles se mantêm no local.

Como é a implementação da técnica no país?

Seguimos uma lista que vem do Ministério da Saúde, que ranqueia municípios acima de 100 mil habitantes que têm histórico de dengue, zika, chikungunya . Fazemos um trabalho de engajamento comunitário que demora alguns meses, para explicarmos o programa, tirarmos dúvida e, ao final, perguntar se a população aprova a liberação dos mosquitos.

Liberamos machos e fêmeas por cerca de 4 a 6 meses uma vez por semana nas áreas escolhidas do município e eles começam a se reproduzir. Em Campo Grande, quando saímos, a prevalência de Wolbitos estava em cerca de 60% e, depois de 2 anos sem liberar, voltamos lá, e a prevalência chegava a mais de 90%.

Não há edição genética, certo?

Muito importante frisar que os mosquitos não são transgênicos, não houve nenhuma modificação genética nem na Wolbachia, nem no mosquito. É natural, foi só uma associação de uma bactéria que é muito comum na natureza no Aedes. E essa bactéria não causa nenhum risco à saúde, nem humana, nem animal ou ambiental. É uma bactéria intracelular, ela não sai de dentro das células.

O quão eficaz é essa estratégia?

Temos mostrado tanto em artigos de outros países como no Brasil a eficácia. O primeiro foi em 2021, em que vimos 69% menos dengue em Niterói. Agora, em agosto, publicamos outro de um acompanhamento maior, em que a redução dos casos chegou a 89% na cidade. E o mais recente, em Campo Grande, mostrou 63% de redução de dengue. Também temos dados muito positivos não publicados em artigo, dos municípios onde houve a implementação nos dizendo que realmente está funcionando, que estão reduzindo bastante a incidência de dengue.

Temos dados também sobre Zika e Chikungunya?

No estudo de 2021, mostramos uma redução de 56% de chikungunya e de 37% de zika em Niterói. Mas o que medimos depende muito do que está acontecendo naquele momento. Às vezes, não temos muito zika circulando, por exemplo, então não temos casos suficientes para determinar se houve uma grande redução, por isso a porcentagem vai ser mais baixa.

Qual é a importância do Brasil no cenário mundial da implementação dessa técnica? Pelo que entendo, somos pioneiros na implementação a nível de política pública, certo?

Hoje somos o país que tem a maior cobertura em termos de proteção de habitantes. As áreas cobertas englobam mais de 5 milhões de pessoas e isso tende a crescer cada vez mais. Estamos fazendo a implementação em mais 6 municípios e devemos iniciar em mais 13 neste ano. Então rapidamente vamos atingir patamares bem altos de população protegida. No mundo, o Brasil realmente está liderando a implementação do Wolbachia e em mostrar a eficácia da prática.

A Wolbito do Brasil surgiu como?

A Wolbito é uma joint venture entre a World Mosquito Program e o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), que é ligado à Fiocruz, e fica aqui em Curitiba, onde fica a sede da empresa, na nossa biofábrica.

Existem planos para construir mais biofábricas?

A demanda hoje é gigantesca, a dengue está no Brasil todo praticamente. Inclusive, houve o movimento para a construção de outra no Ceará, mas o projeto ainda não foi finalizado por falta de investimento. E hoje nossa produção em Curitiba ainda não é usada completamente. Temos capacidade de produzir pelo menos 100 milhões de ovos de mosquitos por semana e proteger 14 milhões de pessoas por ano.

A Anvisa está com um Comitê de Inovação que já declarou ter entre as prioridades a análise do método Wolbachia. O que significa?

Vai ser um marco regulatório. Não há no Brasil hoje quem regule para registrarmos o método como um produto.

Existe algum temor que o vírus da dengue se adapte à Wolbachia, assim como ocorre com algumas vacinas?

Fico bastante tranquilo em relação a isso porque já temos artigos científicos mostrando que são pelo menos uns quatro ou cinco mecanismos diferentes que ocorrem dentro da célula para fazer esse bloqueio. Se fosse um só, seria mais fácil de a evolução “quebrar” isso. Acredito que demore centenas, milhares de anos para que isso aconteça. Na drosophila, que é a mosca da fruta, essa interação com a Wolbachia é muito antiga e, até hoje, a bactéria bloqueia os vírus nela.

Em quanto tempo o senhor acredita que vamos começar a ver o impacto a nível nacional?

Às vezes somos procurados pelos gestores e eles querem que a gente resolva o problema nos próximos meses. Deixamos muito claro que o resultado demora, temos também a questão da sazonalidade das arboviroses. Então é pelo menos um, dois anos para vermos o resultado, mas ele é sustentável a longo prazo. A nível nacional vai depender da nossa capacidade de operação. Mas nos próximos dois anos acredito que já vamos ver uma expansão para vários municípios, em várias regiões do país, então teremos resultados mais concretos.

Em relação à vacinação, como o senhor vê o papel de cada uma dessas estratégias a longo prazo?

O Ministério da Saúde está apostando em diversas tecnologias e, pensando e organizando de uma forma racional, muitas são complementares e podem ser utilizadas juntas, caso do Wolbachia e da vacina. Em áreas difíceis de soltar os mosquitos com Wolbachia, como favelas, em que vimos que é difícil por conta da violência, a vacina é uma estratégia ainda mais importante. E em locais em que a vacina não consegue chegar por alguma questão logística, ou por não haver doses suficientes, o Wolbachia tem o seu papel. E, muito importante, o método Wolbachia também evita chikungunya e zika.


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