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Este artigo foi escrito originariamente para leitores do The Conversation dos Estados Unidos.
As instituições de saúde pública estão sob ameaça de governos populistas em todo o mundo.
De Budapeste a Jacarta, na Indonésia, agências de saúde pública estão sendo privadas de financiamento e independência. Enquanto isso, a desinformação semeou desconfiança em relação aos especialistas científicos. Os resultados já são visíveis, com o retorno de doenças antes consideradas eliminadas ou controladas, como o sarampo e a coqueluche.
Os Estados Unidos não são exceção nessa tendência. Desde que Robert F. Kennedy Jr. foi confirmado como secretário de Saúde e Serviços Humanos em fevereiro de 2025, ele demitiu mais de 10.000 funcionários, cortou orçamentos e tentou enfraquecer as recomendações sobre vacinação infantil. Embora grupos médicos e de saúde pública tenham reagido a estas medidas com algum sucesso, as principais instituições governamentais de saúde enfrentam um vácuo de liderança, e a política nacional de saúde pública dos EUA se fragmentou em “alianças de saúde” formadas por grupos de estados.
Médicos e cientistas em todo o país preocupam-se com os danos a longo prazo ao sistema de saúde americano.
Como pesquisadora que estuda a política de saúde, acredito que seja útil olhar para países que conseguiram lidar com ameaças semelhantes. Como meus coautores e eu argumentamos, a experiência do Brasil oferece insights sobre como as instituições de saúde pública podem preservar seu poder e autoridade diante de ataques.
Assim como os EUA, o Brasil tem um Congresso fragmentado e polarizado, tem lobbies poderosos e com interesses próprios e um sistema de governo federal. E, assim como nos EUA, os desfechos em saúde sofrem com grandes disparidades raciais e de renda.
Mas quando o então presidente Jair Bolsonaro atacou o sistema de saúde brasileiro durante a pandemia de COVID-19, o público se mobilizou com sucesso em sua defesa.
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Um sistema de saúde sob ataque
O sistema de saúde do Brasil, estabelecido em sua forma atual em 1990, oferece assistência médica universal e gratuita a todos os seus cidadãos. Apesar de algumas falhas significativas, incluindo o acesso desigual a cuidados em áreas pobres e rurais, seu foco na atenção preventiva é amplamente considerado um modelo para o mundo.
Antes do governo do populista de direita de Bolsonaro, de 2019 a 2022, os brasileiros confiavam nas vacinas. Eles tinham o que os especialistas em saúde pública chamam de “cultura da vacina”, graças ao trabalho árduo dos profissionais de saúde que passaram anos promovendo-as e tornando-as facilmente acessíveis. As vacinas têm até um mascote nacional muito querido no personagem Zé Gotinha.
Quando a COVID-19 atingiu o Brasil em março de 2020, Bolsonaro – apelidado por muitos de “Trump dos Trópicos” – lançou ataques sem precedentes ao programa de vacinação do Brasil. Entre outras medidas, ele demitiu a liderança do Ministério da Saúde e nomeou como ministro um oficial militar da ativa sem qualificação na área da saúde.
Os ataques de Bolsonaro ao programa de vacinação – um pilar dos esforços de saúde preventiva do Brasil – foram especialmente intensos. Ele pressionou a agência reguladora de medicamentos do Brasil a proibir vacinas pediátricas. Ele bloqueou recursos para a aquisição de vacinas contra a COVID-19 e espalhou desinformação, notoriamente sugerindo que a vacina poderia causar AIDS.
Após os ataques iniciais de Bolsonaro aos esforços de resposta à COVID-19 no Brasil, todo o sistema de saúde parecia à beira do colapso. Mas os profissionais de saúde pública do Brasil mobilizaram amplo apoio popular para defender seu programa de vacinação.
Governadores da oposição ofereceram ajuda importante, mas limitada ao produzir suas próprias diretrizes de vacinação e adquirir suas próprias vacinas. Mas o apoio político, por si só, não conseguiu superar os ataques de Bolsonaro.
Isso porque o programa de vacinação do Brasil dependia não apenas de independência, mas também de recursos para funcionar. E governos com tendência anticiência têm muitas maneiras de privar até mesmo órgãos bem estabelecidos de recursos sem ampla aprovação do Congresso.
O programa de vacinação do Brasil acabou sobrevivendo porque aliados fora do governo intervieram para defendê-lo, não apenas com ativismo político, mas também doando dinheiro e recursos e por meio do ativismo social.
Líderes empresariais e comunitários ao resgate
Empresas preencheram as lacunas nos recursos governamentais com financiamento do setor privado. Duas coalizões empresariais doaram um total de mais de R$ 270 milhões (US$ 54 milhões) para ajudar dois laboratórios públicos, o Instituto de Tecnologia em Imunobiologia, conhecido como BioManguinhos, e o Instituto Butantan.
Uma das maiores fundações do Brasil, a Fundação Lemann, financiou os ensaios clínicos da AstraZeneca no Brasil. A Ambev, uma das maiores empresas da América do Sul, cedeu sua equipe de logística para ajudar BioManguinhos a adquirir suprimentos e equipamentos.
O grupo Mulheres do Brasil, uma rede apartidária de mulheres líderes empresariais, chegou a criar uma campanha chamada “Unidas pela Vacina” para ajudar municípios a adquirir os equipamentos de distribuição de vacinas de que precisavam. Elas forneceram às autoridades de saúde locais suprimentos baratos, como coolers e geladeiras, bem como mais caros, como barcos e até aviões, para transportar vacinas para comunidades isoladas da Amazônia.
Como a pneumologista Margareth Dalcolmo, que prestou consultoria para a Unidas pela Vacina, enfatizou em uma entrevista: “Todas as solicitações foram atendidas, sem que um único centavo do dinheiro do governo fosse usado”.
De baixo para cima
Outro componente extremamente importante na defesa do programa de vacinação do Brasil foi o apoio de grupos de base locais confiáveis.
Quando as vacinas ficaram disponíveis, grupos comunitários em todo o país entraram em ação para combater a desinformação com suas próprias campanhas informativas produzidas localmente – especialmente em comunidades carentes.
Um grupo com o qual conversei distribuiu 5.000 cartazes informativos por toda a vizinhança. Outro, “Tamo Junto Rocinha”, publicou um livro com atividades para as crianças fazerem com os pais enquanto as aulas estavam suspensas – tudo com informações sobre vacinação incluídas. O Voz das Comunidades, um serviço de notícias, chegou a criar um aplicativo para smartphones para combater a desinformação e, ao mesmo tempo, notificar os membros de comunidades periféricas sobre o número diário de mortes.
Tantos grupos de base locais se organizaram para combater os ataques de Bolsonaro às vacinas contra a COVID-19 que pesquisadores começaram a mapear as campanhas que surgiam por todo o país. No início de 2021, um mapa havia identificado mais de 1.300 iniciativas locais e mais de 800 organizadas por universidades.
Em agosto de 2022, apesar das campanhas de desinformação de Bolsonaro, 81% da população adulta do Brasil estava totalmente vacinada contra a COVID-19. Essas taxas de vacinação igualavam as da Nova Zelândia e da Holanda e estavam bem acima das dos Estados Unidos, onde apenas 67% estavam totalmente vacinados na época.
Isso não quer dizer que o Brasil estivesse imune às campanhas de desinformação. As taxas de vacinação para algumas doenças, como o sarampo, diminuíram, assim como em todo o mundo.
Mas, de muitas maneiras, os ataques ao programa de vacinação do Brasil, paradoxalmente, o fortaleceram. No final de 2022, graças ao apoio de doadores, BioManguinhos já havia construído um novo laboratório de testes, e o Butantan estava construindo uma nova unidade de produção de vacinas. O Brasil chegou a ganhar um novo instituto nacional de vigilância sanitária com financiamento privado, o “Todos pela Saúde”. Em 2024, após a derrota de Bolsonaro nas eleições, os gastos gerais com o sistema de saúde aumentaram 27% em relação ao ano anterior.
Visão de longo prazo para a saúde pública
Na minha opinião, essas medidas de emergência no Brasil funcionaram de forma eficaz porque o país já vinha, há anos, construindo uma base de confiança — e de apropriação — em relação aos objetivos comuns de seu sistema de saúde pública.
Décadas atrás, nos anos 1980, os brasileiros conseguiram exigir que seus políticos tornassem a assistência médica acessível a todos – impulsionando a criação do sistema universal de saúde do país, conhecido pela sigla SUS.
O Ministério da Saúde do Brasil continua a investir fortemente para garantir que os cidadãos se apropriem dele. Cidades e vilas estão repletas de cartazes declarando “O SUS é nosso!” ou “A saúde é um direito seu!”
Como descobri em minha recente pesquisa no Brasil, esse tipo de propaganda faz com que as pessoas sintam que suas instituições são um direito conquistado e reduz o poder das mensagens partidárias.
O Brasil também investe na integração dos profissionais de saúde às comunidades que atendem e na promoção da confiança do público em sua expertise. Profissionais de saúde do governo costumam montar postos em praças públicas para divulgar exames de câncer ou aplicar vacinas. Eles visitam regularmente escolas, onde médicos ou enfermeiros conversam com os jovens em linguagem acessível sobre o que o sistema público de saúde do país oferece aos cidadãos. Como me disse um profissional de saúde:
É como se eles estivessem constantemente dizendo: ‘Olha, as portas estão abertas. Você pode vir. Você será atendido e apoiado’.
Essas relações de longo prazo entre comunidades e o sistema de saúde pública ajudaram a estabelecer as bases para o Brasil montar uma defesa unificada quando turbulências políticas ameaçaram as agências de saúde pública. Em todo o mundo, uma visão de longo prazo para construir ou fortalecer essas relações pode ajudar o público a abraçar a ideia de que vale a pena defender as instituições de saúde pública.
This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
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