Iniciativa que reúne hospitais de referência e centros de pesquisa deve articular estudos clínicos no país em parceria com Oxford
O Brasil passou a integrar de forma mais estruturada a corrida global por vacinas contra o câncer com a criação de um consórcio que reúne hospitais e centros de pesquisa para desenvolver imunizantes contra a doença. A iniciativa articula centros ligados ao A.C.Camargo, Einstein, Sírio-Libanês, a BP e o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, além de instituições como o CNPEM, a Fiocruz e o CT-Vacinas, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O objetivo é ampliar a capacidade nacional de pesquisa pré-clínica e clínica em vacinas oncológicas.
Para acelerar esse processo, conta com a parceria da Universidade de Oxford, no Reino Unido, referência global em plataformas de vacinas RNA. Na última semana, os pesquisadores da instituição britânica estiveram no país visitando as instalações de pesquisa e participando de reunião de trabalho. Destacaram a infraestrutura para ensaios clínicos no país, os biobancos dos hospitais e a diversidade genética.
A criação da rede ocorre em meio à crescente pressão imposta pelo avanço dos casos de câncer e pelo custo cada vez mais elevado dos tratamentos oncológicos. “Os medicamentos para câncer estão ficando cada vez melhores, mas também impagáveis, mesmo para sistemas com muita estrutura. Isso se torna um desafio no Brasil, um país de renda média e com um sistema público que atende 220 milhões de pessoas”, afirma Fernanda De Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde.
A iniciativa se insere em projeto do Ministério da Saúde para reduzir a dependência externa em tecnologias de alto custo e ampliar o acesso do SUS à inovação. Em novembro de 2025, anunciou o investimento de R$ 67,4 milhões no Centro de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, para acelerar o desenvolvimento de tecnologias para o SUS. No campo das vacinas, direcionou R$ 60 milhões para a criação do primeiro Centro de Competência em RNA, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).
Segundo Victor Piana, CEO do A.C.Camargo, a rede tem potencial para contribuir com respostas à crise global do câncer ao investir em uma tecnologia que pode ser também preventiva. “A forma como temos tratado o câncer atualmente, de esperar o paciente adoecer, é ineficiente. Desenvolver vacinas, com tudo o que aprendemos sobre imunologia e câncer na última década, dá expectativa de que consigamos desenvolver tecnologias menos custosas”.
Como deve funcionar
O consórcio pretende atuar em duas frentes de imunizantes: terapêuticos e preventivos. Os primeiros são usados para estimular o sistema imunológico de pacientes que já têm câncer, enquanto os preventivos são voltados à redução do risco de surgimento de determinados tumores. Uma das pretensões é testar vacinas em pacientes de alto risco para câncer, com síndromes genéticas, como o BRCA do câncer de mama. A definição de recortes específicos em tipos de câncer depende da maturação dos futuros projetos.
A parceria com Oxford dá um peso importante para avançar com tecnologias e abordagens. Nos últimos anos, o centro de imuno-oncologia da universidade britânica tem se empenhado em construir competência na área, com pesquisa básica e ensaios clínicos acelerados. Tem interesse em detecção precoce, novas terapias e big data de câncer. Inclusive, aplica inteligência artificial para acelerar esse processos, com modelos treinados para 33 tipos de tumor.
Segundo o pesquisador Lennard Lee, professor associado e líder de grupo de pesquisa do centro, sua equipe tem usado IA em diferentes etapas, desde a calibragem de inclusão de pacientes e amostras, sequenciamento genômico de amostras até monitoramento clínico e coleta de dados. A tecnologia se aprimora à medida que novos dados treinam a máquina, um processo em looping.
“O uso de inteligência artificial sobre os dados moleculares faz um pré-trabalho para que o cientista consiga selecionar quais os alvos com maior potencial para a vacina”, explica Victor Piana. Segundo ele, esse processo encurta o caminho para o desenvolvimento das vacinas e se reverte em mais chances de sucesso no final de testes clínicos.
A frente abre a possibilidade de realização, no Brasil, de estudos clínicos com vacinas oncológicas que já se encontram em estágios avançados de desenvolvimento. O centro de Oxford mantém um pipeline com ao menos 11 vacinas preventivas, em diferentes fases. “Teremos oportunidade de explorar diferentes plataformas juntos e ver quais vão funcionar melhor”, diz Carol Leung, pesquisadora líder de grupo de pesquisa no instituto britânico.
Uma das mais adiantadas é a vacina contra o vírus Epstein-Barr (EBV), que, segundo Leung, já passou por testes pré-clínicos em roedores e em células humanas in vitro e deve iniciar a fase de ensaios clínicos em humanos. Ainda não existe um imunizante licenciado globalmente para o vírus, responsável por 200 mil casos de câncer por ano.
Por enquanto, os pesquisadores estão discutindo ideias e sinergias entre projetos feitos nas instituições e formas de estruturar o programa. Entram no escopo a necessidade de definir objetivos concretos e metas, mecanismos de financiamento e de seleção de projetos. Pontos ainda envolvem estruturar quais cânceres serão priorizados nesta etapa inicial e como articular o uso dos diversos biobancos dos hospitais.
Também estão em estudo possíveis fontes de financiamento para o consórcio. De Negri cita a possibilidade de uso de recursos do próprio Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional (Proadi-SUS) — do qual os hospitais fazem parte — e fundos do Ministério da Saúde, com a abertura de chamadas e editais específicos.
Foto: Time de pesquisadores do Centro de Imuno-oncologia da Universidade de Oxford visitou instalações de instituições brasileiras, como o A.C.Camargo e CNPEM (Crédito: Assessoria)
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