Estudantes descobrem que lugar de mulher é na ciência (e no poder)-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

13/02/2026

Uma centena de meninas matriculadas em escolas públicas do Rio de Janeiro coloriu o dia chuvoso do campus principal da Fiocruz, em Manguinhos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, na segunda-feira (9/2). Naquele dia foi aberta a programação da Imersão no Verão 2026 do programa Mulheres e Meninas na Ciência, organizada pela Fundação.

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A coordenadora de Divulgação Científica e do programa Mulheres e Meninas na Ciência, Cristina Araripe (ao centro), explica às estudantes o que esperar da Imersão Verão 2026 (Foto: Peter Illiciev)

Enquanto as estudantes comiam seu kit de café da manhã, a coordenadora de Divulgação Científica e do programa Mulheres e Meninas na Ciência, Cristina Araripe, passava informes e adiantava o que as estudantes poderiam esperar da imersão em ciência. Ela fez uma brincadeira logo que as viu tomando suco de caixinha: “Eu gosto mais quando é natural e não o ultraprocessado. Vou reclamar lá! Se bem que para essa logística aqui tinha que ser algo assim mesmo, para não estragar, tinha que ser pasteurizado. Aliás, pasteurizado vem de Pasteur, que foi um cientista francês contemporâneo de Oswaldo Cruz, que dá nome à nossa fundação”, disse ela, perguntando em seguida quem já tinha ouvido falar em Oswaldo Cruz e abordando rapidamente o que era a pasteurização. E foi assim, mostrando que a ciência está em tudo – até no suquinho de caixinha – que começou a Imersão no Verão 2026.

Na Tenda da Ciência Virgínia Schall a programação começou com uma apresentação de Cristina Araripe. Ela relembrou que, em 2015, a ONU determinou o 11 de fevereiro como Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, e que em 2019 a Fiocruz criou seu programa para festejar a data com ações concretas de interação entre meninas estudantes e mulheres cientistas da casa. Maria Luiza de Alcântara Araújo, de 16 anos, estudante do Colégio Estadual Olavo Bilac, em São Cristóvão, foi a primeiríssima a levantar a mão para fazer uma pergunta, ainda durante a fala da coordenadora, e indagou algo que provavelmente a maioria das meninas estava se coçando para saber: “Sei que vamos encontrar algumas cientistas, e queria saber como vai ser”. Foi o mote para Cristina discorrer sobre o que é a Fiocruz e desmistificar a ideia do cientista que trabalha apenas na bancada do laboratório: “Você já encontrou com diversas cientistas até aqui. Eu mesma sou uma, mas sou da área de Humanas, me graduei em Ciências Sociais e História.

Vindas de escolas públicas de diversos bairros da cidade do Rio e de outros municípios, as estudantes foram selecionadas a partir de uma chamada pública da Fiocruz. Muitas tomaram conhecimento do programa em suas próprias escolas ou por meio de instituições que frequentam. Outras, pela família – especialmente as mães: “Foi minha mãe que viu na internet e me disse ‘olha que legal’. Aí eu falei para ela: então tá, me inscreve aí”, contou Emanuelle Simões França, de 16 anos, aluna do Colégio Brigadeiro Newton Braga, na Ilha do Governador, uma escola militar mantida pela Aeronáutica.

Uma das editoras científicas das revistas Ciência Hoje e Ciência Hoje das Crianças, a pesquisadora do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (UFRJ) Andrea T. da Poian compartilhou com a plateia a sua trajetória na ciência. Começou contando que na infância e adolescência não tinha a menor ideia do que queria ser na vida, só sabia que gostava de viajar e tinha atração pelo desconhecido: “Dei sorte de estudar em uma escola que incentivava a criatividade. Eu gostava de biologia e minha atração pelo desconhecido foi o elemento que me fez querer entender as moléculas e como se dá a vida”, resumiu. Andrea foi a primeira de uma série de pesquisadoras que ao longo dos três dias da Imersão comentaram sobre o desafio de construir uma carreira científica e ao mesmo tempo formar uma família e ter filhos, mostrando que a barra pode ser difícil, mas é totalmente administrável – e nesses momentos era sempre possível ouvir aqui e ali um “ufa” de alguma menina: “Ter uma família é um dos meus sonhos, então ouvir que você tem capacidade de fazer o que gosta, mesmo sendo mulher, e poder ter uma vida, uma família, foi importante”, disse Maria Eduarda Oliveira da Silva Teotônio, de 18 anos, aluna do Caic Euclides da Cunha.

Conhecendo os lugares onde se faz ciência

Na parte da tarde, as meninas se dividiram em três frentes de atividades: um grupo foi para a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio e para o Instituto Oswaldo Cruz conhecer os diversos jogos educativos produzidos pelos pesquisadores da casa; outro grupo permaneceu na Tenda da Ciência para acompanhar apresentações de iniciativas e projetos institucionais da Fiocruz, como o Canal Saúde, o Ciência em Gotas e o Trajetória de Mulheres, além de assistir ao documentário Ciência delas, produzido pela VideoSaúde, distribuidora de vídeos da Fiocruz, e dirigido por Daniela Muzi e Beatris Duquevis; em Bio-Manguinhos, o terceiro grupo participou de uma roda de conversa com diversas mulheres ocupando cargos de destaque na unidade, que compartilharam histórias sobre suas trajetórias. Uma delas foi a vice-diretora de Qualidade, Monique Collaço, graduada em Farmácia, mas que reforçou a necessidade de uma pluralidade de profissionais para que uma instituição de pesquisa científica como a Fiocruz cumpra sua missão: “Quem está na dúvida, saiba que há muito espaço para o desenvolvimento profissional mesmo fora das bancadas, porque a ciência precisa de todas vocês”.

Após a roda de conversa no auditório de Bio-Manguinhos, seguiram para a fábrica de vacinas, onde o assessor da Vice-Diretoria de Produção de Biológicos, Ricardo Lopes, mostrou alguns dos equipamentos da fábrica de vacinas e explicou um pouco sobre a produção de biofármacos. As alunas se interessaram especialmente quando ele abordou o incansável trabalho do setor na produção das vacinas contra a Covid-19 durante a pandemia: “Fizemos em um ano o que normalmente levaria dez anos. Foi um esforço concentrado, tanto para responder às pressões da imprensa e da sociedade quanto por nós mesmos, pois perdemos muitos colegas para a doença”, disse Ricardo. Terminada a visita, as meninas o cercaram com perguntas sobre quais as funções que cada profissional pode ocupar em Bio-Manguinhos e os modos de acesso a estágios e outras formas de inserção.

Segundo dia: a visita aos laboratórios

No segundo dia da Imersão de Verão 2026, logo cedo as meninas foram distribuídas por laboratórios de pesquisa em 13 unidades científicas do campus, onde foram recebidas por mulheres pesquisadoras para apresentar suas áreas. Alguns desses laboratórios se concentravam na Escola Nacional de Saúde Pública. Andrea Sobral, vice-diretora de Pesquisa e Inovação da unidade, recebeu com um caprichado café da manhã pouco mais de 30 meninas – eram previstas 50, mas algumas faltaram ou se atrasaram devido ao tempo chuvoso no Rio. E foi já em meio aos comes e bebes que começou o intercâmbio entre mulheres da ciência e meninas interessadas em adentrar esse mundo. Diretor da Ensp, o pesquisador Marco Menezes foi dos poucos homens presentes nessas boas-vindas e estimulou o interesse: “A mulher pode e deve estar onde ela quiser, mas eu espero que seja aqui na nossa casa e também nos lugares de poder da sociedade”, disse.

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Estudantes conhecem laboratórios e o trabalho dos cientistas (Foto: Peter Ilicciev)

A cereja do bolo do café da manhã foi uma palestra da professora Cecília Minayo, uma das pesquisadoras mais antigas ainda em atividade na instituição. Ela contou um pouco da sua história e respondeu perguntas das meninas. Andrea Sobral comemorou o entrosamento: “A gente quer mostrar o que se faz aqui na Ensp, que é valorizar as mulheres, valorizar a ciência, valorizar a diversidade. E receber essas meninas aqui é como ter uma sementinha sendo plantada. Uma oportunidade de mostrar para elas que a ciência vai para muito além do nosso contexto de Manguinhos, a ciência aqui é feita para a saúde pública, para os povos que necessitam da ciência”, disse Andrea, reforçando que a ideia não era apenas apresentar a infraestrutura de pesquisa da instituição, mas demonstrar o compromisso com a diversidade e a valorização do protagonismo feminino na produção de conhecimento científico.

Lara Conceição da Silva, de 17 anos, aluna da Faetec de Marechal Hermes, foi uma das que valorizaram a informação de que a ciência pode ser feita também longe das bancadas dos laboratórios. Ela cursa o técnico em Administração, mas na faculdade quer partir para algo como História: “Esse evento ajudou a esclarecer muita coisa na minha cabeça. Eu achava que para ser cientista era uma complicação muito maior”.

As lições de mulheres que chegaram no topo

O último dia da Imersão no Verão 2026 reservou para as meninas uma roda de conversa com as quatro vice-presidentes mulheres da Fiocruz: Marly Cruz, de Educação, Informação e Comunicação; Maria de Lourdes Aguiar Oliveira, de Saúde Global e Relações Internacionais; Priscila Ferraz, de Produção e Inovação em Saúde; e Alda Cruz, de Pesquisa e Coleções Biológicas; além de Eduarda Cesse, adjunta de Marly na VPEIC. Marly, aliás, já começou seu relato com a voz embargada: “Esse é um dia especial para mim porque ele me faz lembrar da minha trajetória. É muito bom ouvir as histórias porque a gente vê que tem coisas em comum, mas tem também suas diferenças. Eu nunca imaginei estar nesse lugar em que estou. Minha mãe sempre teve vergonha de contar a história dela, porque era uma história de muita violência. E eu digo a vocês: não aceitem a violência, nenhum tipo de violência. Minha mãe não tinha muitos recursos, mas acreditou e falava assim: eu quero que vocês tenham uma vida diferente da vida que eu tive, e enquanto eu

Assim como em outros momentos da Imersão, o tema do fazer ciência e ao mesmo tempo ter vida pessoal e uma família também transpassou os relatos na roda de conversa, como no de Priscila Ferraz: “Meu filho estava doentinho esses dias e eu dormi na casa da minha sogra, porque ela me deu esse apoio. E hoje pela manhã ele estava deitado, eu botei o termômetro nele e ao mesmo tempo estava lendo uma tese de doutorado porque vou estar numa banca hoje à tarde. Essa é a vida da mulher, e a gente tem a força de fazer tudo isso no nosso dia a dia, cuidar do filho, cuidar da casa, a gente é muito isso do cuidar: cuidar do trabalho, não tratar isso só como uma coisa do dia a dia. E estar aqui na Fiocruz facilita muito isso, porque a gente está cuidando das pessoas e, em última instância, da saúde da população”. Eduarda Cesse comentou quase na mesma linha: “Fui mãe aos 22 anos, tenho dois filhos homens e duas netas meninas, uma de 10 anos e outra de 1 mês e meio. Mestrado e doutorado foram feitos nesse caminhar materno”.

Fechando a manhã, meninas e meninos do Ballet Manguinhos aqueceram o coração de todos com uma apresentação de dança – primeiro uma peça clássica apenas com as meninas e depois os meninos se somaram ao grupo numa série de coreografias ao som de poderosas canções na voz de Elza Soares, como A mulher do fim do mundo, A carne e Maria de Vila Matilde

A programação do Mulheres e Meninas na Ciência se encerrou na tarde de quarta-feira, com uma foto histórica feita nas escadarias do Castelo Mourisco com todas as alunas participantes, as monitoras e organizadoras e algumas das pesquisadoras que participaram do evento, além da coordenadora, Cristina Araripe. Foi uma oportunidade também de conhecer partes do Castelo e alguns espaços do Museu da Vida. E depois compartilharem o último lanche juntas, antes de seguirem de volta para suas casas matutando sobre tudo o que viram, ouviram e sentiram durante esses três dias.

E será que as donas da festa gostaram da Imersão no Verão 2026? “Achei muito legal o evento. É uma experiência que todos deveriam ter, porque muda muito a sua perspectiva sobre o quão uma mulher pode ser importante na sociedade. Eu acho que todas as mulheres deveriam ter essa experiência, principalmente as meninas. Além de ter mudado a minha forma de ver as mulheres na sociedade, perceber que elas têm uma grande importância na ciência, eu acabei me divertindo muito aqui, encontrando várias meninas que me inspiraram muito a pensar em profissões diferentes”, disse Maria Luiza Araújo, dando por totalmente atendida a expectativa que a fez levantar o braço logo no início do evento para fazer a primeira pergunta.


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