Um estudo liderado pela Fiocruz analisou a circulação dos vírus influenza no Brasil ao longo da temporada de 2025 e confirmou que as vacinas utilizadas no período foram eficazes contra as principais cepas em circulação no país. Causador da gripe, o vírus influenza se caracteriza pela diversidade de tipos e subtipos e por uma alta taxa de variação genética, o que exige atualização periódica das vacinas e vigilância contínua.

Monitoramento da circulação dos vírus influenza orienta a atualização das vacinas e as estratégias de prevenção no país (Foto: Roberto Dziura Jr/Agência Estadual de Notícias do Paraná)
Com base em dados da rede nacional de Vigilância Laboratorial do Vírus Influenza, coletados entre agosto de 2024 e agosto de 2025, a análise apontou o predomínio do influenza A(H1N1)pdm09 no território brasileiro, além da circulação simultânea de outras linhagens do vírus, como o influenza B (Victoria) e o subtipo A(H3N2).
Também foram identificados casos isolados de cepas contendo mutação que pode afetar a resposta ao Oseltamivir, principal antiviral usado no Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo os autores, os achados foram pontuais e não indicam disseminação, mas reforçam a importância do monitoramento genômico e antigênico constante, que permite acompanhar como o vírus muda ao longo do tempo e avaliar possíveis impactos sobre vacinas e tratamentos.
De acordo com a virologista Paola Resende, do Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais do IOC, a análise reforçou a importância e a eficácia da vacinação, mesmo diante das variações genéticas observadas entre 2024 e 2025. “Do ponto de vista laboratorial, tanto as análises genéticas quanto os testes antigênicos mostraram que as vacinais conseguiram inibir os vírus em circulação no Brasil, confirmando a eficácia da vacina naquele período”, explicou.
A pesquisadora alertou, contudo, para a baixa adesão à vacinação, especialmente entre os grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde, como idosos, crianças, gestantes e pessoas com comorbidades. Segundo ela, ampliar a cobertura vacinal é fundamental para fortalecer a proteção coletiva e reduzir o risco de casos graves e hospitalizações.
Esforço em rede
Após as mudanças provocadas pela pandemia de Covid-19 na dinâmica de circulação de vírus respiratórios, a gripe vem retomando gradualmente seu padrão sazonal no Brasil, o que reforça a importância do monitoramento do influenza. Nesse cenário, os resultados foram apresentados no artigo Panorama molecular e antigênico dos vírus influenza em circulação no Brasil durante a temporada de 2025, divulgado em formato de preprint em janeiro de 2026.
As análises se basearam em mais de 106 mil amostras coletadas em diferentes regiões do Brasil entre agosto de 2024 e agosto de 2025, provenientes tanto de casos de síndrome gripal quanto de síndrome respiratória aguda grave (SRAG). O trabalho combinou sequenciamento genético dos vírus — para identificar subtipos, linhagens e mutações — com testes antigênicos — que avaliam se os vírus em circulação continuam sendo reconhecidos pelos anticorpos induzidos pelas cepas da vacina.
Em relação às amostras analisadas, cerca de 12,8% testaram positivo para influenza. Do total de casos confirmados, o influenza A(H1N1)pdm09 foi responsável pela maior parcela das infecções, concentrando aproximadamente 40% dos registros, seguido pelo influenza B da linhagem Victoria, com cerca de 30%. O subtipo A(H3N2) apresentou circulação mais limitada, em torno de 7% dos casos. Nos registros de síndrome respiratória aguda grave associados à influenza, o A(H1N1)pdm09 também se destacou como o principal agente, estando presente na maioria dos casos hospitalizados e em quase metade dos óbitos confirmados por influenza no período analisado.
As análises genômicas indicaram a circulação simultânea de diferentes subgrupos dos vírus influenza A e B em distintas regiões do país. Segundo a virologista Paola Resende, esse comportamento reflete a dinâmica natural do vírus, que pode variar ao longo do tempo e se manifestar de forma diferente entre as regiões, influenciado por fatores como clima e deslocamento de pessoas.
“A circulação do vírus influenza não segue um padrão fixo. Depois que ele entra no país, a disseminação depende de fatores como fluxo de pessoas, clima e características regionais, o que pode gerar picos em momentos diferentes ao longo do ano”, resumiu.
Apesar dessa diversidade genética, os subtipos analisados permaneceram compatíveis com as cepas utilizadas nas vacinas. Assim, a vacinação segue como uma estratégia eficaz de proteção contra a gripe. Os pesquisadores também investigaram marcadores genéticos associados à resistência a antivirais, como o Oseltamivir, principal medicamento utilizado no tratamento da influenza no SUS. Segundo os autores, os achados foram raros, não se espalharam e não indicam perda de eficácia do antiviral, mas reforçam a importância da vigilância permanente.
O estudo é resultado do trabalho da rede nacional de Vigilância Laboratorial do Vírus Influenza, que atua de forma integrada ao sistema global de monitoramento da gripe coordenado pela OMS. Ao todo, a iniciativa contou com a participação de 46 instituições e 116 coautores.
No Brasil, esse esforço em rede envolve diretamente três Centros Nacionais de Influenza (NICs) — o Instituto Evandro Chagas (IEC), o Instituto Adolfo Lutz (IAL) e o próprio Instituto Oswaldo Cruz —, que recebem amostras encaminhadas pelos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACENs) e realizam análises laboratoriais complementares.
O trabalho conta ainda com a atuação integrada das vigilâncias epidemiológicas municipais, estaduais e nacional, fortalecendo a capacidade do país de detectar, monitorar e responder à circulação dos vírus influenza. Além de acompanhar a circulação dos vírus no país e no mundo, a rede subsidia as reuniões internacionais responsáveis pela definição e atualização das cepas que compõem a vacina contra a gripe. Grande parte dos dados gerados pelo estudo, inclusive, foi submetida à OMS na forma de relatório técnico em setembro de 2025, contribuindo para a definição da composição da vacina contra a influenza do Hemisfério Sul para a temporada de 2026.
“Existe uma rede global que trabalha de forma incansável no monitoramento dos vírus influenza, e esse trabalho subsidia as reuniões internacionais que decidem a atualização das cepas que compõem a vacina contra a gripe”, destacou.
Preparação para riscos emergentes
Além de orientar a composição de vacinas e antivirais, a vigilância da influenza cumpre um papel estratégico na detecção precoce de riscos emergentes, incluindo o surgimento de vírus com potencial pandêmico. Durante a temporada analisada, foi registrado um caso raro de influenza A(H3N2)v no Paraná, associado à exposição a suínos. Embora a investigação não tenha identificado transmissão sustentada entre humanos, o episódio evidenciou a importância de manter sistemas capazes de detectar rapidamente vírus que cruzam a barreira entre espécies.
“O influenza tem potencial epidêmico e pandêmico. Por isso, é fundamental manter um monitoramento sensível e constante, capaz de identificar rapidamente tanto mutações associadas à resistência a antivirais quanto eventos de origem zoonótica, antes que eles se espalhem”, afirmou Paola Resende.
Segundo os autores, a circulação de vírus influenza em humanos e animais cria oportunidades para rearranjos genéticos que podem dar origem a novas variantes. Nesse contexto, o acompanhamento genômico e epidemiológico não apenas subsidia ações imediatas de saúde pública, como também fortalece a capacidade do país de responder a cenários epidêmicos e pandêmicos futuros, em articulação com o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde.
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