Fiocruz Pernambuco
Pesquisas realizadas pela Fiocruz, em parceria com a Universidade de Pernambuco (UPE) e financiadas pelo projeto Inova Fiocruz, apontam que a implantação e a operação de aerogeradores em comunidades rurais de Caetés, no Agreste pernambucano, vêm produzindo impactos contínuos sobre a saúde física, mental e social da população local. Os estudos analisam diferentes dimensões desse processo e indicam que os efeitos associados aos empreendimentos permanecem presentes no cotidiano das comunidades, especialmente no Sítio Sobradinho, onde foram mapeados 55 pontos domiciliares e 83 torres eólicas por meio da plataforma Google MyMaps.
No território, foram identificadas 12 casas vazias, abandonadas ou demolidas, um dado que dialoga com relatos de desgaste social e intenção de deslocamento dos moradores. Ao todo, 35 domicílios foram visitados e 54 moradores entrevistados. A proximidade entre as residências e os aerogeradores se destaca como um dos fatores centrais observados: a distância média dos domicílios em relação às torres é de 411 metros, com casos extremos que variam entre apenas 100 metros e até 900 metros.
Desde as etapas iniciais da investigação, já eram observadas mudanças significativas no cotidiano da população. Os dados indicam que 77,3% dos moradores relataram níveis elevados de estresse, 75% apontaram perda da qualidade do sono e 72,7% referiram episódios recorrentes de insônia. Outros sintomas frequentes incluíram irritação nos olhos (68,2%), ansiedade (63,6%), dores de cabeça (61,4% e tontura ou vertigem (59,1%). Também foram registradas queixas relacionadas à audição e ao comportamento, com 56,8% dos entrevistados relatando diminuição da capacidade auditiva e o mesmo percentual mencionando irritabilidade ou agressividade. Palpitações cardíacas foram citadas por 54,5% dos participantes.
Os levantamentos mais recentes reforçam que os impactos não se limitam a sintomas pontuais. Cansaço e fadiga foram relatados por 47,7% dos moradores, enquanto 45,5% mencionaram diminuição da capacidade de atenção, concentração, aprendizagem e memória, além de alterações visuais. Também foram registradas queixas como bruxismo (34,1%), alergias na pele (31,8%), alterações da frequência respiratória (31,8%) e problemas gastrointestinais (29,5%). Diagnósticos de pressão alta foram identificados em 25% dos entrevistados e de depressão em 22,7%. Apenas 2,3% afirmaram não apresentar sintomas ou problemas de saúde associados à convivência com os aerogeradores.
Esses achados são reforçados pela docente da UPE e colaboradora do Programa de Saúde Pública da Fiocruz Pernambuco, Wanessa Gomes, que coordena o estudo ao lado do pesquisador André Monteiro. Ela destaca a relação direta entre a proximidade das residências e a intensidade dos impactos observados. “A pesquisa mostra que, quanto mais próximas as pessoas moram dos aerogeradores, maiores são os impactos, especialmente na saúde mental”, afirma.
Segundo a pesquisadora, os dados evidenciam a necessidade de maior atenção do poder público quanto ao ordenamento territorial. “Encontramos casas a apenas 100 metros dos aerogeradores, que têm cerca de 150 metros de altura. Isso reforça a importância de uma legislação que garanta o distanciamento adequado entre as torres e as residências”, declara .
Wanessa Gomes acrescenta que, além dos impactos sonoros, o medo de acidentes faz parte do cotidiano das comunidades. “Há relatos de quedas de torres e de hélices próximas às casas, além de barulhos intensos, especialmente durante períodos de chuva, o que gera um ambiente constante de tensão”, observa.
No campo da saúde auditiva, foram realizados exames de audiometria em 31 participantes, com idade média de 42,81 anos e distância média entre as residências e os aerogeradores de 235,04 metros. Os resultados indicam que 81,48% relataram dificuldade de compreensão auditiva, 77,77% apresentaram diminuição da capacidade auditiva e 92,59% referiram zumbido. A análise das audiometrias revelou que 74,07% apresentaram alterações em pelo menos um dos ouvidos, com predominância de perda auditiva sensorioneural.
Os impactos também se estendem à saúde bucal. Entre os 20 exames realizados em moradores expostos aos aerogeradores, 90% apresentaram diagnóstico de disfunção temporomandibular (DTM), índice superior ao observado em estudos populacionais gerais. O bruxismo foi relatado por 34,1% dos entrevistados.
As pesquisas relacionam esses impactos à exposição contínua a ruídos de baixa frequência e infrassons emitidos pelas turbinas, associados a quadros descritos na literatura científica como a Síndrome da Turbina Eólica e a Doença Vibroacústica. Essas condições afetam diferentes sistemas do organismo e tendem a se agravar em contextos de maior proximidade entre residências e aerogeradores.
Outro aspecto recorrente identificado é o desgaste social vivido pelas comunidades. Moradores relataram a intenção de deixar suas casas diante da dificuldade de convivência com os empreendimentos e da ausência de medidas efetivas de mitigação e acompanhamento em saúde, além de resistência crescente à participação em pesquisas, reflexo do cansaço acumulado e da percepção de falta de respostas institucionais.
O conjunto das investigações adota uma abordagem de pesquisa-ação, integrando produção científica, ações de cuidado em saúde e mobilização comunitária. Entre as estratégias desenvolvidas estão mutirões com equipes multiprofissionais, avaliações auditivas, ações em saúde bucal, uso de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, além de espaços de formação e reflexão coletiva voltados à defesa do território e à reivindicação de direitos.
Ao reunir resultados de diferentes fases, os estudos contribuem para o debate sobre os impactos socioambientais da expansão da energia eólica no Brasil e reforçam a necessidade de que projetos de fontes renováveis incorporem critérios de justiça social, proteção à saúde e respeito às populações do campo no planejamento energético.
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Foto: Camilo Lobo/Diálogo Chino
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