Evento no Rio debate políticas de cuidado no Dia Estadual de Saúde nas Favelas-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

12/02/2026

O Museu de Favela (MUF), em Ipanema, foi palco nesta terça-feira (10/2) de um encontro que reafirmou uma certeza construída nos territórios: saúde se faz em rede, com escuta, participação e protagonismo comunitário. Com o tema Políticas de cuidado nas favelas produzem saúde para todas as pessoas, o Dia Estadual de Saúde nas Favelas reuniu lideranças, organizações sociais, pesquisadores e representantes institucionais para celebrar e fortalecer as ações do Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro, iniciativa da Fiocruz que articula organizações sociais, universidades e coletivos comunitários.

Evento.

Dia Estadual de Saúde nas Favelas reuniu lideranças, organizações sociais, pesquisadores e representantes institucionais (foto: Leonardo Sodré)

 

Logo na abertura, o vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, Valcler Rangel, destacou o alcance nacional da experiência construída no estado. “Temos hoje um conjunto de iniciativas espalhadas no país com foco na população das favelas e periferias que se espelharam muito no Plano Integrado de Saúde nas Favelas e na iniciativa da rede 146x Favela. Tem muita inspiração e uma responsabilidade de continuar servindo de referência para outros lugares, sejam no Amazonas, no Pará, no Ceará, em Pernambuco, no Nordeste inteiro, em Minas Gerais, no Espírito Santo, em São Paulo e Brasília”, afirmou. “Estão sendo articulados muitos projetos, principalmente capitaneados por mulheres e jovens. Em março, participaremos de uma mesa com o Ministério de Direitos Humanos e Cidadania sobre envelhecimento na periferia e nas favelas. Isso mostra que essa discussão efetivamente entrou na política pública”.

A mesa institucional contou ainda com o diretor-presidente do MUF, Henrique Porto; com a coordenadora do Instituto Golfinhos da Baixada, Gisele Castro; com pesquisadora do Plano, Bruna Montes; e seu coordenador executivo, Richarlls Martins.

O cuidado tem gênero, território e história

Ao trazer a experiência concreta das mulheres nas favelas, Gisele Castro destacou o tempo invisível do cuidado. “Uma das coisas que mais impactam na lógica do cuidado nas favelas e periferias é o tempo de serviço que as mulheres empenham em cuidar. O cálculo do tempo de cuidado que mãe dedica aos filhos e à família chega a 15 horas por dia. Começa às 7 horas da manhã e encerra às 10 horas da noite. São 15 horas de cuidado. É muito tempo”, afirmou. “Muitas dessas mulheres negras não têm opção, não têm direito de escolher se vão cuidar ou não. A Política Nacional de Cuidado precisa considerar a questão de gênero e como equiparar isso”.

A reflexão dialoga diretamente com os dados apresentados mais tarde na Avaliação Diagnóstica Externa, realizada pela PUC-Rio e UFRJ. O estudo, que analisou 46 projetos apoiados pelo primeiro edital realizado pelo Plano, identificou que a presença feminina é central nas ações: tanto como público majoritário quanto como liderança das iniciativas.

A cientista social Mariana Camasmie, pesquisadora da PUC-Rio e integrante da equipe responsável pelo diagnóstico, destaca a presença massiva das mulheres. “A presença das mulheres foi identificada com muita força em diversas pontas. A maioria do público foi de mulheres e um percentual muito expressivo de lideranças comunitárias. Isso apareceu de maneira muito consistente nos relatórios, inclusive na articulação entre organizações e lideranças locais”.

Segundo o levantamento, os projetos promoveram mudanças relevantes na percepção comunitária sobre saúde integral, com fortalecimento do pertencimento, emergência de novas lideranças e ampliação da compreensão da saúde para além da assistência — incorporando alimentação saudável, saúde mental, autocuidado, renda e participação social.

Saúde é rede, é território, é política

Após a abertura, o público se dividiu entre a visita guiada às exposições do MUF e a oficina Cuidado como Prática Coletiva nos Territórios, conduzida pela Casa Fluminense e pelo Espaço Gaia. A atividade propôs mapear práticas de cuidado que já acontecem nas comunidades, muitas vezes sem serem reconhecidas como políticas de saúde.

Para a vice-diretora do Espaço Gaia, Lívia Santos, que atua em favelas de São Gonçalo, a discussão precisa necessariamente considerar a dimensão de gênero. “Nós temos uma chance grande de entrar com a discussão dos territórios junto à Secretaria Nacional de Cuidados. Foi enorme a dificuldade do tema gênero se manter na política nacional de cuidados. E estamos mostrando que não é possível pensar cuidado sem falar de gênero. Somos quase 80% de mulheres à frente de projetos sociais. Isso já dá o tom de como acontece o cuidado nos territórios”.

Os dados do diagnóstico reforçam essa percepção: as organizações avaliaram de forma altamente positiva a atuação em rede, destacando cooperação, corresponsabilidade e fortalecimento institucional. Também apontaram desafios em relação a obtenção de recursos e sobrecarga das lideranças, fatores que impactam diretamente a sustentabilidade das ações. Ainda assim, o estudo conclui que a chamada pública teve papel estratégico no fortalecimento das redes territoriais, ampliando a participação social e consolidando uma visão de saúde como direito e processo coletivo.

Um cuidado que transforma políticas públicas

No encerramento, durante a apresentação do diagnóstico, o coordenador executivo do Plano, Richarlls Martins, destacou que o debate sobre políticas de cuidado nas favelas representa uma inflexão importante na agenda pública. “Quando falamos de políticas de cuidado nas favelas, estamos afirmando que esses territórios produzem soluções concretas para os grandes desafios da saúde pública. O cuidado que nasce nas favelas é coletivo, é solidário e é político. Ele enfrenta desigualdades históricas de raça, gênero e renda. Reconhecer isso é fundamental para que as políticas públicas deixem de tratar as favelas apenas como espaços de vulnerabilidade e passem a reconhecê-las como espaços de produção de conhecimento, de inovação e de direito à saúde”. Martins ressaltou ainda que o Plano Integrado de Saúde nas Favelas tem demonstrado que a articulação entre organizações comunitárias, universidades e poder público é capaz de gerar impactos materiais e simbólicos duradouros.

Ao final do evento, entre conversas, trocas de experiências e práticas, ficou evidente que o Dia Estadual de Saúde nas Favelas ultrapassa o simbolismo da data. “É um marco que se consolida como espaço estratégico de construção política, onde cuidado, território e participação social caminham juntos e a saúde se firma como direito produzido coletivamente”, define Martins.


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