Febre Oropouche: vírus passou por adaptação genética e tem nova linhagem no Brasil, diz estudo-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

12/03/2026

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  • Pesquisadores da UFF, Fiocruz e UFJF identificaram nova linhagem do vírus Oropouche circulando no Sudeste do Brasil.
  • Estudo com 55 pacientes em MG e RJ entre dezembro/2024 e maio/2025 mostrou adaptação genética do vírus à região.
  • Mutações alteraram proteínas de superfície do vírus, aumentando capacidade de transmissão e interação com hospedeiros.
  • Sintomas incluem febre, dores de cabeça e manchas na pele (45% dos casos); em um terço dos pacientes houve retorno dos sintomas.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) identificou, pela primeira vez, uma nova linhagem do vírus Oropouche, causador da  febre do Oropouche (OROV), que circula no Sudeste do país e se diferencia daquela comum em regiões amazônicas.

Leia também: Vírus Oropouche: o que é a doença parecida com a dengue que também afeta o Brasil – Revista Fórum

A pesquisa acompanhou 55 pacientes infectados com o vírus entre dezembro de 2024 e maio de 2025, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, e descobriu, a partir de análises genéticas, que os casos registrados no Sudeste correspondem a uma nova linhagem viral, formada após alterações e reorganizações no material genético do vírus.

De acordo com os cientistas, isso indica que o vírus se adaptou a um novo tipo de ambiente ecológico.

O Oropouche foi identificado pela primeira vez em 1955, em Trinidad e Tobago, país insular no sul do Caribe próximo à Venezuela. Outras observações na região amazônica revelaram a presença do vírus sobretudo em áreas de florestas densas.

No norte do país, em especial no Amazonas, já houve milhares de casos de febre do Oropouche, intensificados pelos ciclos de mudanças ambientais e urbanização que trazem novos vetores do vírus.

O estudo conduzido pela equipe de cientistas de diversas instituições brasileiras, publicado no periódico Open Forum Infectious Diseases, mostra o novo processo de diversificação genética do vírus, agora em uma nova região do Brasil.

A análise filogenética do vírus, responsável por reconstruir sua “árvore genética”, revelou que ele passou por adaptações específicas à região Sudeste, que envolveram rearranjo genético do RNA viral para formar a variante com maior capacidade de transmissão nos hospedeiros encontrados na região, de maneira similar aos vírus da dengue e da chikungunya (que também sofreram expansão da sua área de transmissão ao longo dos anos).

Essas mutações afetam principalmente as proteínas da superfície do vírus, que são responsáveis por reconhecer células do hospedeiro, permitindo a penetração da carga viral e uma interação mais eficaz com o sistema imunológico do receptor.

A pesquisa também detalha as manifestações clínicas da doença nos pacientes analisados, que às vezes se confundem com sintomas comuns a outros vírus: febre, dores de cabeça intensas, mal-estar corporal generalizado e manchas na pele, sintoma encontrado em até 45% dos casos estudados.

No caso da febre Oropouche, há também um segundo período de sintomas agudos.

Em um terço dos pacientes, os sintomas tendem a reaparecer após a primeira semana, interrompendo um quadro de melhora inicial. Essa característica pode ajudar a distinguir a doença de outros vírus causadores das chamadas “arboviroses”, doenças infecciosas transmitidas por mosquitos e favorecidas por regiões com altas temperaturas e umidade.

Os pesquisadores identificaram, ainda, que o RNA do vírus Oropouche pode permanecer detectável na urina por mais de três semanas após a infecção.

A transmissão ocorre principalmente por meio de um inseto conhecido como maruim, pequeno mosquito da família Ceratopogonidae que vive em áreas úmidas, próximas a rios, igarapés, manguezais e cachoeiras.

Fatores como mudanças climáticas, expansão urbana, mobilidade populacional e alterações ambientais podem favorecer a circulação de arbovírus em novos territórios, inclusive adaptações genéticas como a identificada no vírus.



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