

Dourados, município sul-mato-grossense que abriga uma das maiores concentrações populacionais indígenas do Brasil, integrou estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre a soroepidemiologia da doença de Chagas em populações indígenas brasileiras. A pesquisa, publicada no periódico Journal of Epidemiology and Global Health, da Springer Nature, avaliou a soroprevalência da enfermidade entre comunidades que vivem em regiões com as maiores populações indígenas do país.
Em Dourados, município distante 228 quilômetros de Campo Grande, os participantes foram recrutados em aldeias e reservas do município, que apresentou a maior diversidade étnica entre todos os locais pesquisados. Os Kaiowá representaram 48,9% dos participantes locais, seguidos pelos Guarani (27,9%) e Terena (15,6%). O contraste com as comunidades baianas era evidente: enquanto os territórios indígenas da Bahia apresentavam predominância de grupos étnicos específicos, Dourados concentrava múltiplas etnias em um mesmo território.
A população total do estudo foi de 2.941 indígenas, sendo 871 deles (29,6%) provenientes do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) de Mato Grosso do Sul, com recrutamento realizado em Dourados. Os demais 2.070 participantes (70,4%) eram do DSEI Bahia, em aldeias localizadas nos municípios de Banzaê, Euclides da Cunha, Ilhéus/Buerarema e Santa Cruz de Cabrália.
Os pesquisadores da Fiocruz Bahia, Isadora Siqueira e Fred Santos, coordenaram o trabalho de campo e a análise dos dados, coletados por meio de questionários estruturados e diagnóstico laboratorial.
Perfil etário e de gênero de indígenas de Dourados
A distribuição etária dos participantes sul-mato-grossenses revelou uma população predominantemente jovem. Os idosos representaram apenas 4,7% dos participantes locais, enquanto a maioria (59,8%) tinha entre 21 e 40 anos. A proporção de mulheres para homens no município foi a mais elevada entre todos os locais do estudo, atingindo 3,51 mulheres para cada homem participante.
Na população total do estudo, a mediana de idade foi de 32 anos, com intervalo interquartil de 20 a 47 anos, e a proporção geral de mulheres para homens foi de 1,90:1. Em todos os locais da pesquisa, o número de mulheres superou o de homens.
Escolaridade e renda: Dourados se destaca em educação formal
O perfil sociodemográfico revelou que a população estudada apresenta baixa escolaridade de forma generalizada, com exceção justamente de Dourados. No município sul-mato-grossense, 38,4% dos participantes haviam concluído entre 8 e 12 anos de educação formal, o melhor índice entre todas as comunidades pesquisadas.
O Ensino Superior, no entanto, era raro em todas as localidades. Em Banzaê, na Bahia, apenas dez indivíduos (2,3%) relataram mais de 12 anos de educação formal.
Os indicadores econômicos revelaram baixa renda generalizada entre os participantes. Do total, 62,9% relataram renda familiar mensal inferior a um salário mínimo (aproximadamente US$ 260). Ilhéus apresentou a maior proporção de famílias de baixa renda, com 76,7% dos participantes nessa condição. Apenas 0,9% dos participantes relataram renda mensal entre um e três salários mínimos, e 0,5% afirmaram ganhar mais de cinco vezes o salário mínimo.
Condições de moradia: precariedade como fator de risco
O estudo revelou ainda que 83,4% dos indígenas residem em casas de alvenaria, 8,6% em casas de madeira e 8% em casas de barro com rachaduras, estruturas particularmente vulneráveis à infestação por triatomíneos, os insetos vetores da doença de Chagas.
Os pesquisadores destacam que a precariedade habitacional é um fator que contribui significativamente para a transmissão do Trypanosoma cruzi. Embora as casas de alvenaria sejam geralmente menos suscetíveis, os vetores podem ser encontrados em qualquer tipo de estrutura que não possua manutenção adequada e organização ambiental, incluindo o ambiente peridoméstico.
O estudo aponta como limitação o fato de não terem sido avaliadas outras características estruturais, como reboco interno ou eletrificação, que poderiam influenciar ainda mais o risco de infestação.
Dourados registra os menores índices de conhecimento sobre a doença de Chagas
Uma proporção substancial dos participantes (99,5%) relatou nunca ter feito o teste para doença de Chagas. Nenhum participante de Banzaê e apenas alguns indivíduos de outras comunidades haviam realizado testes sorológicos anteriormente.
Em relação ao conhecimento sobre o barbeiro, que é o vetor da doença, aproximadamente 44% dos participantes relataram ter visto o triatomíneo e conseguiram associá-lo à doença de Chagas. Em Dourados, no entanto, apenas 1,8% dos participantes relataram ter visto o inseto e mais de 98% nunca tinham ouvido falar dele.
O contraste com as comunidades baianas era expressivo. Mais da metade dos participantes em Euclides da Cunha, Ilhéus e Banzaê relataram já ter visto o inseto barbeiro. Nessas localidades, 37,7%, 46,3% e 28,6% dos participantes, respectivamente, relataram ter encontrado um exemplar dentro de suas casas. O contato peridomiciliar com o vetor foi relatado por 40,6% dos participantes em Euclides da Cunha, 35,8% em Ilhéus e 35,3% em Banzaê.
Em Dourados, os relatos de contato em ambientes internos e externos foram insignificantes, com 0,4% e 0,1%, respectivamente. A incidência de picadas por barbeiros foi baixa em todos os locais do estudo, com as maiores porcentagens observadas em Ilhéus (5,2%) e Euclides da Cunha (5,1%). Nenhum caso de picada de inseto foi relatado em Dourados.
Histórico familiar da doença de Chagas
Dos participantes, 2,2% relataram ter um familiar com doença de Chagas, com relatos de parentes afetados em todos os locais do estudo. A frequência de histórico familiar variou de 0,5% em Dourados a 3,5% em Santa Cruz Cabrália. Entre aqueles que relataram um familiar infectado, os parentes mais comumente afetados foram avós e mães, representando 35,8% dos casos.
Pesquisa confirmou dois casos de doença de Chagas
Entre 2.897 indivíduos testados, a soroprevalência da doença de Chagas foi de 0,07%, com apenas dois casos positivos confirmados. O estudo destacou o baixo nível de escolaridade, as precárias condições de moradia e a alta prevalência de comorbidades como hipertensão e diabetes entre a população pesquisada.
A pesquisa identificou uma lacuna significativa no conhecimento sobre a doença de Chagas e seu vetor, com 99,5% dos participantes nunca tendo sido testados para a doença.
Indígenas são mais suscetíveis a doenças tropicais negligenciadas
Os pesquisadores destacam que as populações indígenas no Brasil são altamente suscetíveis a doenças tropicais negligenciadas devido a fatores socioeconômicos e ambientais. A doença de Chagas, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, é uma enfermidade significativa com graves implicações para a saúde.
A pesquisa sobre a doença de Chagas em populações indígenas brasileiras ainda é limitada, contrastando fortemente com os extensos estudos realizados em populações não indígenas. Essa discrepância evidencia uma lacuna na compreensão da prevalência e da dinâmica de transmissão da doença de Chagas em comunidades indígenas em comparação com a população não indígena.
O estudo teve como objetivo avaliar a soroprevalência da doença de Chagas em comunidades indígenas que vivem em regiões com as maiores populações indígenas do Brasil e analisar suas características sociodemográficas, condições de moradia, comorbidades e conhecimento sobre a doença e seu vetor.
Os achados do estudo ressaltam a necessidade urgente de intervenções de saúde pública personalizadas, educação em saúde aprimorada e estratégias de diagnóstico aperfeiçoadas para tratar a doença de Chagas nas comunidades em situação de vulnerabilidade.
Os pesquisadores apontam que são necessárias pesquisas adicionais para explorar a epidemiologia da doença e desenvolver medidas eficazes de prevenção e controle para populações indígenas. A associação entre infecção por T. cruzi e condições precárias de moradia, juntamente com baixa renda familiar, está bem documentada em áreas rurais da América Latina e reforça a necessidade de políticas públicas que considerem as especificidades culturais e territoriais dessas comunidades.
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