Indígenas do Alto Solimões começam a defender teses de mestrado para formação da primeira turma de sanitaristas das tribos-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

01/03/2026

O curso de mestrado em Saúde Coletiva, oferecido pela Fiocruz Amazônia, dentro do Programa de Pós-Graduação em Condições de Vida e Saúde na Amazônia (PPGVIDA), deu início, nesta sexta-feira, 27/02, ao período de defesas de dissertação da primeira turma de sanitaristas indígenas do Alto Solimões, no Amazonas. A defesa de dissertação é a etapa final e pública do mestrado, onde o candidato apresenta seus resultados e é avaliado por uma banca sobre a robustez teórica e metodológica de sua pesquisa. “Estamos muito felizes com o resultado dessa etapa do processo de formação da nossa primeira turma de mestrado oferecida na região da Tríplice Fronteira apenas com alunos indígenas. Tivemos a apresentação de uma bela dissertação do cirurgião-dentista Ozeir Cavalcante Fernandes, que pertence à etnia Ticuna e acabou de apresentar um estudo na área de saúde bucal indígena com uma banca muito bem qualificada que o aprovou com louvor”, comemorou a pesquisadora sênior da Fiocruz Amazônia, Luiza Garnelo, coordenadora do curso de mestrado fora da sede.

Em março, serão realizadas várias defesas na cidade de Tabatinga e, na sequência, no mês de abril, está prevista a realização de um evento, na sede da Fiocruz Amazônia, em Manaus, com a finalidade de apresentar a produção de intelectuais indígenas em programas de pós-graduação no campo da saúde, contando também com novas defesas de mestrandos indígenas do PPGVIDA, voltadas à formulação de políticas públicas de saúde para essas populações. Ao todo, a turma do Alto Solimões é formada por 15 indígenas de etnias variadas. O primeiro a defender a dissertação foi o discente Ozeir Cavalcante Fernandes, natural de uma comunidade indígena do município de Benjamin Constant. Orgulhoso do resultado obtido, Ozeir afirma esperar que novas iniciativas como a do mestrado em Saúde Coletiva da Fiocruz Amazônia continuem sendo oferecidas a indígenas de todo o território nacional.

“Nossa expectativa é de que experiências como essa não sejam únicas e possam se ampliar para que mais indígenas tenham oportunidade de qualificação acadêmica”, destacou Ozeir, emocionado. Graduado em odontologia pela Faculdade Metropolitana de Manaus (Fametro), ele, hoje, atua como dentista do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI Yanomami), em Roraima. Na sua pesquisa, intitulada “Utilização dos serviços de saúde bucal pela população indígena adulta do Polo Base Filadélfia, Benjamin Constant, Amazonas”, Ozeir avaliou as práticas de cuidado e os fatores relacionados ao uso dos serviços de saúde bucal, tendo como orientador o pesquisador em saúde pública da Fiocruz Amazônia, Fernando Herkrath.

Para Herkrath, a oportunidade de orientar um aluno da primeira turma de sanitaristas indígenas do Brasil foi um privilégio e tem muito significado. “Iniciativas como esta contribuem para fortalecer a identidade e autonomia dos povos indígenas e possibilitam a produção de conhecimento acadêmico que valorize os saberes tradicionais”, afirmou o pesquisador, que compôs a banca examinadora, juntamente com o pesquisador da ENSP Rui Arantes, renomado especialista em saúde bucal indígena do País, como avaliador externo ao programa, e a pesquisadora Luiza Garnelo (avaliadora interna).

O Mestrado em Saúde Coletiva, na modalidade sala estendida (realizado fora da sede da instituição) foi o primeiro no País voltado exclusivamente para indígenas, e um desafio para a Fiocruz Amazônia. Luiza Garnelo destaca a importância fundamental das parcerias para o êxito da iniciativa. “Contamos com o apoio da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), que concedeu 15 bolsas de estudo além de recursos para auxílio em pesquisa para os indígenas aprovados, e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio de projeto aprovado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “Sem essas parcerias, seria impossível realizar essa empreitada, vencendo tantos desafios logísticos”, enfatizou Garnelo.  O processo seletivo reuniu Tikunas, Kambebas, Kaikanas, Marubos, Kokamas e Kanamaris, dos municípios de Tabatinga, Benjamim Constant, Atalaia do Norte, Amaturá e Santo Antônio do Içá.

A pesquisadora ressalta que o objetivo é qualificar indígenas graduados em diversas áreas de conhecimento para que possam atuar no campo da saúde coletiva e desenvolver atividades afins, atuando nas instituições que existem na região e contribuindo para melhoria da prestação dos serviços de saúde indígena e na própria atenção primária dos municípios. “Como sanitarista indígena, os profissionais podem atuar de forma qualificada na implantação de atividades de gestão, monitoramento, avaliação, vigilância em saúde e processos investigativos que são necessários para subsidiar e melhorar a qualidade das ações de saúde”, explica Luiza.




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