Recentemente, a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc), juntamente com colaboradores brasileiros, incluindo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), vem concentrando esforços no sentido de investigar o impacto econômico indireto do câncer, e de ampliar a visibilidade dessa temática.
Vários estudos já foram publicados por este grupo de colaboradores – do qual nós, autores deste artigo, pertencemos. E ao participarmos de uma investigação sobre a perda de produtividade nos BRICS, surgiu a ideia de explorarmos de forma mais detalhada este indicador aqui no Brasil, ao longo do tempo e por regiões. A ideia foi mostrar a relação entre saúde, economia e impacto social, para reforçar a urgência de investimentos em prevenção, rastreamento e tratamento oncológico. Estratégias que, além de salvar vidas, promovem o desenvolvimento das sociedades.
Primeiro desafio: por onde começar?
Há algum tempo, estudos vem alertando sobre o aumento da incidência do câncer colorretal entre pessoas com menos de 50 anos. Há projeção de aumento do número de casos de 21% no Brasil entre 2030 e 2040. Este impulsionamento deve-se pelo envelhecimento populacional, dietas ricas em alimentos ultraprocessados, sedentarismo e obesidade.
Além disso, aproximadamente 65% dos casos são diagnosticados em estágio avançado, quando as chances de cura são menores. Isso reforça a necessidade de prevenção por meio do rastreamento.
Outro aspecto importante é a dificuldade de acesso ao tratamento. O atraso no início do tratamento é mais frequente em pessoas pretas e pardas e com baixo nível de escolaridade. E mais: são pessoas encaminhadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e que precisam receber o tratamento fora do seu município de residência.
Também chamado de câncer de intestino, é o segundo tipo que mais acomete mulheres (após câncer de mama) e homens (após câncer de próstata) no país. Esse câncer é diagnosticado quando o paciente apresenta tumores no intestino grosso, chamado cólon, e no reto, que corresponde ao final do intestino.
Chama a atenção também o aumento da mortalidade, que foi de 120% nos últimos 20 anos. A mortalidade prematura, entre 30 e 69 anos, também tem aumentado de forma considerável.
Assim, escolhemos priorizar os dados do câncer colorretal e o potencial de redução de mortalidade para esta patologia. Seu controle envolve estratégias de prevenção primária,que visa a redução dos fatores de risco. Na prevenção secundária, o rastreamento deve ser feito para detecção precoce e remoção de lesões precursoras. E na prevenção terciária, é essencial o acesso ao tratamento em tempo oportuno.
O impacto econômico indireto do câncer colorretal no Brasil
Um estudo publicado recentemente por nós e colaboradores internacionais no periódico científico The Lancet estimou o impacto econômico indireto da mortalidade por câncer colorretal no Brasil entre 2001 e 2030, com detalhamento por região.
Esse impacto foi medido pela metodologia do capital humano estimado em anos potenciais de vida produtiva perdidos e perdas de produtividade – ou seja, quanto essas pessoas deixaram de produzir porque foram à óbito pela doença enquanto ainda trabalhavam.
No Brasil, é comum que pessoas continuem trabalhando após a aposentadoria, por isso, incluímos óbitos ocorrendo a partir dos 15 anos de idade até o final da vida.
Foram estimadas 635.253 mortes por câncer colorretal entre 2001 e 2030, correspondendo a 12,6 milhões de anos potenciais de vida produtiva perdidos, e perdas de produtividade da ordem de US$ 22,6 bilhões.
Os resultados mostram aumentos expressivos das mortes e das perdas econômicas, com importantes desigualdades regionais.
Um achado de destaque foi que, apesar de as regiões Norte e Nordeste apresentarem os menores impactos econômicos totais, essas regiões concentram os maiores crescimentos relativos de mortalidade, anos de vida produtiva perdidos e perdas de produtividade, indicando as desigualdades regionais.
Além disso, se considerarmos os óbitos individuais nessas regiões, temos maiores perdas de produtividade e maior número de anos de vida produtiva perdidos.
Já as regiões Sul e Sudeste, mais avançadas na transição epidemiológica e demográfica, apresentaram maior mortalidade e perdas absolutas.
Como esse tipo de pesquisa contribui para o avanço da pesquisa em câncer?
Esse estudo contribui para avançar a pesquisa em câncer ao demonstrar que a mortalidade por câncer não gera apenas impacto na saúde, mas também importantes consequências econômicas e sociais.
As mortes prematuras por câncer reduzem o estoque de capital humano sob a perspectiva da sociedade.
Quando as pessoas morrem em decorrência do câncer e antes de atingir sua expectativa de vida, ocorre a perda de suas contribuições para suas famílias, comunidades e para a sociedade como um todo.
Os resultados fornecem evidências sobre os potenciais ganhos econômicos de investimentos sustentados em prevenção, rastreamento, diagnóstico precoce e acesso oportuno ao tratamento.
Na prática, essas informações podem orientar políticas públicas e o planejamento regionalizado dos serviços de saúde, contribuindo para reduzir desigualdades, salvar vidas e mitigar o impacto social e econômico das mortes prematuras por câncer.
Nossos resultados também fornecem elementos adicionais ao subsidiar avaliações econômicas de incorporação de novas estratégias tanto de prevenção (como rastreamento) e tratamentos.
Interesse global
Nos anos mais recentes, o interesse pela investigação da carga global do câncer e pelos danos que vão além de medidas clássicas como incidência, mortalidade e sobrevivência ampliaram-se.
O estudo de outros indicadores como estimativas de mortes evitáveis relacionadas a fatores de risco e impacto econômico do câncer têm sido crescente devido a sua capacidade de fornecer informações adicionais para subsidiar políticas públicas de controle do câncer.
A relevância aumenta à medida que o câncer é a segunda doença que mais mata no mundo, atrás das doenças cardiovasculares.
Em algumas cidades do Brasil, já é a principal causa de morte. E as estimativas de incidência apontam para 518 mil casos anuais (excluídos os tumores de pele não melanoma) entre 2026 e 2028 no Brasil.
Essa pesquisa foi financiada pela programa MSD Independent Oncology Policy Grant Program.
Não houve envolvimento do patrocinador nas decisões relacionadas ao estudo, incluindo a metodologia, a coleta, a análise e a interpretação dos dados, assim como na escrita deste texto e na decisão de submeter este artigo para publicação.
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