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Um novo medicamento desenvolvido no Brasil será o primeiro fitoterápico industrializado feito com base na quebra-pedra, uma planta medicinal usada por povos tradicionais da América Latina.
Produzido pela Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), o medicamento poderá ser o primeiro produzido por um laboratório público brasileiro a ser distribuído no Sistema Único de Saúde (SUS).
A estimativa é que o desenvolvimento termine em menos de seis meses. Após uma etapa de estudos que ainda deve levar mais dois anos, o medicamento poderá se juntar a uma lista de outros 12 fitoterápicos já ofertados pelos SUS.
O projeto é fruto de parcerias entre a FioCruz, o Ministério do Meio Ambiente e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) – que visa promover o desenvolvimento sustentável de países membros da ONU. Para a aquisição de equipamentos, insumos, serviços e outros custos de produção, foram destinados R$ 2,4 milhões do projeto Fitoterápicos, do PNUD, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente.
A Phyllanthus niruri, apelidada no Brasil de quebra-pedra, é uma erva que brota na região tropical da maioria dos continentes. Essa planta, presente em todos os estados brasileiros, é tradicionalmente consumida na forma de chá, e seu uso é associado principalmente à prevenção de pedra no rim.
Seus nomes são muitos: erva-pombinha, quebra-pedra, Chanca Piedra (em países hispanohablantes), Bhumyamalaki (na Índia). Aqui no Brasil, o uso da planta é comum, por exemplo, entre os Ka’apor, povos indígenas do Maranhão que, em sua língua derivada do tupi-guarani, chamam a planta de Ita-Mirá.
Estudos recentes já vinham indicando que a quebra-pedra, além de segura, poderia ser usada para o tratamento de distúrbios urinários. Em artigo publicado em 2018, pesquisadores da USP indicaram que, em uma amostra de 56 participantes, o consumo da planta contribuiu para a eliminação de cálculos renais (pedra no rim). Antes disso, a quebra-pedra também já havia sido associada a possíveis efeitos diuréticos (que aumentam a produção de urina) e anti-inflamatórios.
O benefício mais comprovado pela ciência é o de prevenir a formação de cálculos. No nosso organismo, o chá consegue impedir o acúmulo dos cristais de oxalato de cálcio. Em grandes quantidades, esses componentes químicos formam, nos rins, pedras dolorosas que são difíceis de expelir normalmente – mas a quebra-pedra pode parar esse processo no meio (não à toa, ela recebe esse nome).
Não só isso: a planta também consegue relaxar o sistema urinário, o que facilita a eliminação dos cálculos.
Hoje, no mercado, não existe nenhum medicamento que atue nas diferentes etapas da formação dos cálculos renais – aspecto no qual o novo produto pode ser inédito.
Além disso, o consumo controlado da erva por meio do medicamento pode prevenir os possíveis riscos da preparação caseira do remédio. Fazendo o chá em casa, pode ser difícil saber, por exemplo, se uma determinada dose é segura ou se a bebida pode estar contaminada.
Em excesso, o chá também pode ter efeitos adversos, como diarreia e vômitos. O processo de fabricação de um medicamento industrializado, por sua vez, é bem mais rígido e controlado.
“Nosso propósito é que a população se beneficie do fitoterápico na forma de um produto farmacêutico, que, por ter processo padronizado e garantia de qualidade pode evitar os riscos de preparações caseiras sem controle (como a troca de espécies, adulterações, baixo teor de ativos), que podem levar à ineficácia ou efeitos indesejados”, disse Maria Behrens, pesquisadora da FioCruz, em nota.
Plantas medicinais no SUS
Cada vez mais, a saúde, no Brasil, tem incorporado práticas da etnofarmacologia, que procura preencher lacunas da medicina com conhecimentos tradicionais. Entre 2023 e 2024, os registros de uso dos fitoterápicos – medicamentos criados a partir de vegetais –, no SUS, saltaram de 500 mil para 562 mil.
Em 2006, o governo brasileiro criou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), que, em 2008, recebeu um adendo dedicado à fitoterapia, na forma da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. A ideia é absorver tudo que há de benéfico nos conhecimentos tradicionais, colocando-os, primeiro, sob o crivo da ciência.
A ideia é incorporar o conhecimento produzido pelos povos e comunidades tradicionais à luz do método científico. Para um fitoterápico ser aprovado para uso na rede pública, por exemplo, ele ainda precisa passar pela regulamentação da Anvisa. Hoje, 12 desses medicamentos já foram incorporados pelo SUS, e estudos já atestam a segurança e eficácia de uma variedade de fitoterápicos.
Remédios como o xarope de Guaco (Mikania glomerata), indicado para doenças respiratórias, e a unha de gato (Uncaria tomentosa), com propriedades anti-inflamatórias, compõem a lista.
Em 2025, o Ministério da Saúde ampliou em R$ 30 milhões o investimento em fitoterápicos por meio do programa Farmácia Viva – uma cifra que equivale a menos de 0,2% do orçamento da assistência farmacêutica.
Em termos econômicos, os fitoterápicos também são um mercado bilionário, avaliado, no ano de 2024, em US$ 230 bilhões. Ainda assim, desse faturamento, o Brasil só fez parte de 0,1%, com R$ 868,4 milhões. Na maior parte dos casos, o Brasil exporta sua biodiversidade como insumo para a produção de medicamentos em outros países, e importa os produtos finalizados por um valor consideravelmente maior.
“O objetivo da Fiocruz é contribuir para assegurar, à população brasileira, acesso seguro a fitoterápicos, por meio do desenvolvimento tecnológico e produção, ajudando a resolver problemas de saúde pública, além de promover o uso sustentável da biodiversidade e o desenvolvimento da cadeia produtiva e da indústria nacional”, disse, Priscila Ferraz, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, em nota sobre o novo medicamento.
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