“Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?” Essas perguntas são feitas na música “Comida”, dos Titãs – e que vi Elza Soares reproduzir durante um show, com sua voz fenomenal. Voltando à letra: sua principal mensagem se refere ao fato de que não queremos só comida, mas também diversão, arte e felicidade. O problema é que, com o passar da idade, alcançar esse combo vai ficando cada vez mais complicado. Sobretudo entre a parcela de idosos que está em um grupo que pode ser denominado de “nem-nem”: eles não trabalham nem estão aposentados. Por isso, dependem do apoio financeiro de outras pessoas.
É preciso reconhecer, porém, que tivemos avanços – frutos de investimentos em políticas públicas de segurança financeira e de garantia à aposentadoria desde a promulgação de nossa constituição federal em 1988. Tanto que a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) contínua do IBGE evidenciou que, em 2021, 8,7% dos idosos se encontravam nessa situação de nem-nem, contra 22,4% em 1980.
Porém, discutir sobre a epidemiologia do envelhecimento requer entender que, hoje, aproximadamente 30 milhões de brasileiros apresentam 60 anos ou mais, o que irá aumentar proporcionalmente a porcentagem de idosos em relação à da população geral. Isso exige novos estudos e propostas para a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.

Envelhecimento acelerado da população brasileira impõe a necessidade de diversas mudanças e discussões dentro da sociedade Foto: UMIT/Adobe Stock
Vale ressaltar que questões econômicas e de sobrevivência já repercutem de maneira aviltante na vida de muitas pessoas idosas brasileiras, como demonstrado na pesquisa Velhices: perspectivas e cenário atual na pesquisa idosos no Brasil, organizada por Celina Dias Azevedo e publicada em 2023. Por exemplo: a falta de dinheiro já é citada por 37% da amostra como a principal razão para que essa população não realize o que gostaria, como atividades de lazer em seu tempo livre. Em seguida, aparecem as questões de saúde (18%).
No caso dos “nem-nem idosos”, eles podem apresentar maiores taxas de depressão, menor adesão a práticas de prevenção e promoção da saúde e, dessa forma, um envelhecimento com maior carga de doença e incapacidade. É um contexto que também traz consequências para seus familiares – afinal, o papel de cuidador pode afetar a saúde mental e até levar à saída do mercado formal de trabalho.
No geral, os nem-nem idosos são menos escolarizados e apresentam outros marcadores potencialmente responsáveis por piores índices de acesso à saúde e a outros direitos básicos. Esse lembrete é fundamental porque, muitas vezes, falamos da população idosa como se fosse uma massa homogênea – e está longe de ser assim.
Idoso no mercado de trabalho
Do ponto de vista do envelhecimento ativo como política pública de saúde, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já elenca propostas que deveríamos focar para a garantia desse e de outros direitos, como o investimento em saúde, educação, participação social e aprendizado ao longo da vida. Este último ponto é especialmente importante para ajudar a pessoa idosa a se manter ativa economicamente, ingressando ou se mantendo no mercado de trabalho – caso seja seu interesse. Não podemos ignorar que a revolução tecnológica em curso altera as dinâmicas sociais e as relações trabalhistas.
Porém, infelizmente ainda vivemos numa dicotomia e cegueira que considera a velhice como um colapso da juventude, o que impacta não só no aumento do etarismo, mas também nas possibilidades de se envelhecer com qualidade.
Ademais, envelhecer é um marco civilizatório de cidadania e garantia de direitos, e aqui vem meu convite aos economistas e formadores de opinião para que a previdência social – e tantas outras políticas públicas de acesso à renda – não sejam enxergadas através da lente e perspectiva da guerra. Sempre que ouvimos a discussão sobre seu financiamento, ouvimos sinônimos para bomba, colapso ou derrocada, quando, na verdade, o esforço complexo deve refletir formas inteligentes de financiamento, sem que o direito à vida e à cidadania seja negado.
Além disso, para que a saúde física e mental de todas as pessoas idosas seja garantida, trago mais um fato: o abandono, a miséria e o desespero não são “fatos da natureza”. Viver uma vida plena, feliz e potente é direito de todos, garantido pela Carta Magna brasileira e reforçada no famoso refrão:
“[…] A gente não quer só comida
A gente quer bebida, diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer […]”
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