Pesquisadora da Fiocruz explica a experiência de médicos brasileiros que conheceram o sistema de saúde da URSS entre as décadas de 30 e 50
No segundo episódio de seu programa de entrevistas em vídeo no canal Farol Brasil, lançado neste sábado (28), Outra Saúde conversou com a historiadora Gabriela Alves Miranda. Em sua recente tese de doutorado realizada na Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), a pesquisadora analisou os relatos de médicos brasileiros que viajaram à União Soviética nas décadas de 1930 e 1950 e conheceram seu pioneiro sistema de saúde.
Nos livros publicados no Brasil em que contam o que viram nessas viagens, “os aspectos que eram valorizados eram a gratuidade e a capilaridade dos serviços de saúde, a atenção às mães e o atendimento médico de crianças nas creches, a saúde do trabalhador. Nas fábricas, os operários passavam por exames regulares de prevenção à tuberculose, por exemplo”, ela aponta. À época, ainda faltavam cinco décadas para que o Brasil conquistasse um sistema público e universal de saúde.
Nos anos 1930, entre os médicos viajantes, havia nomes ilustres como Maurício de Medeiros, que viria a ser ministro da Saúde de Juscelino Kubitschek, e Osório César, pioneiro da arte-terapia e companheiro da pintora Tarsila do Amaral. A historiadora explica o interesse: “Em um momento de crise liberal, havia uma certa simpatia e curiosidade com aquele modelo [da saúde soviética]”.
Já na década de 1950, quando médicos como Milton Lobato e Raul Ribeiro da Silva visitaram a URSS, suas publicações eram muito mais marcadas pelo cenário de Guerra Fria. “Havia um interesse em divulgar o que seria a saúde nesse modelo socialista. Independente de suas flutuações domésticas, a União Soviética sempre teve a saúde como uma das pernas de seu sistema, e ela fomentava esse interesse como uma espécie de vitrine da modernidade socialista”.
Documentos policiais que a autora disponibiliza em sua tese sugerem uma significativa audiência para as conferências e publicações sobre a saúde na URSS que circulavam no Brasil dos anos 50. “Esses viajantes médicos tiveram um papel bastante importante na divulgação e circulação das ideias sobre o que era a medicina soviética e os valores que estavam sob esse guarda-chuva”.
No entanto, no que se refere a possíveis influências sobre o SUS e a Reforma Sanitária, Miranda indica que no máximo há conexões indiretas, ou que ainda precisam ser exploradas por mais pesquisadores. Leia a reportagem completa deste boletim sobre os estudos da autora.
Confira aqui todos os vídeos do programa Outra Saúde no Farol Brasil. No primeiro episódio, a vereadora Luana Alves (PSOL-SP) conta o que são as OSS e como estas entidades privadas têm se infiltrado no SUS.
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