Pesquisa do Mapa de Conflitos da Fiocruz revela as injustiças e o racismo ambiental presentes nos pesadelos climáticos vividos pelo povo gaúcho-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

16/01/2026

Tania Pacheco

A crise climática (ou deveríamos dizer “as crises climáticas”?) vividas pelo povo do Rio Grande do Sul nos últimos três anos estão agora presentes num espaço de pesquisa muito especial: o Mapa de Conflitos envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, que integra a Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) da Fiocruz.

A pesquisa, postada no site esta quinta-feira, 15/01, sob o título Rio Grande do Sul no contexto da Crise Climática: eventos extremos no Vale do Taquari e na Bacia do Lago Guaíba, foi realizada pela equipe do Mapa de Conflitos utilizando também dados de um relatório técnico produzido pela Ouvidoria Externa da Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul (OEDPERS), em parceria com universidades e outras instituições do estado: “Rio Grande do Sul no Contexto da Crise Climática” (2025). Segundo a Síntese que nos oferece a pesquisa do Mapa,

“O estado do Rio Grande do Sul (RS), localizado no sul do Brasil, vivenciou eventos extremos de chuvas e inundações nos anos de 2023 e 2024 que colocaram o território no centro do debate sobre a crise climática global. A ocorrência de eventos geo-hidrológicos provocou desastres ambientais, afetando, em diferentes intensidades, quase a totalidade de seus municípios. Enchentes de grande magnitude e eventos climáticos extremos evidenciaram a vulnerabilidade ambiental da região e a insuficiência das políticas públicas de mitigação e adaptação.

De acordo com boletins emitidos periodicamente pela Defesa Civil do Rio Grande do Sul, a população potencialmente afetada chegou a 2,4 milhões de pessoas. O Laboratório de Inovação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Singed Lab/IBGE), a partir de um cruzamento entre a mancha de inundação e a geolocalização da população, contabilizou 876.565 pessoas diretamente afetadas pelo fenômeno climático extremo de 2023 e 2024.

Segundo a Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Redesca, 2025), da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul causaram perda de vidas e destruição material, e expuseram profundas desigualdades sociais, evidenciando um cenário de racismo ambiental. Comunidades historicamente marginalizadas, como afrodescendentes, quilombolas e indígenas, foram desproporcionalmente afetadas, revelando a interseção entre desastres socioambientais e injustiças raciais (Redesca, 2025, p. 19-20).

A Ouvidoria Externa da Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul (OEDPERS), em parceria com instituições colaboradoras, produziu o relatório técnico “Rio Grande do Sul no Contexto da Crise Climática” (2025). A partir da compreensão de que a crise climática não é apenas uma questão ambiental, mas uma manifestação das relações desiguais de poder que atravessam as dimensões econômica, política e social, o relatório analisou como os diferentes grupos sociais foram desproporcionalmente afetados pelos eventos climáticos e destacou que as respostas políticas e institucionais, em muitos casos, não consideraram essas desigualdades. Esse estudo inédito da OEDPERS foi gentilmente cedido por seus realizadores para a elaboração do relato que agora publicamos neste Mapa de Conflitos.”

A íntegra da pesquisa Rio Grande do Sul no contexto da Crise Climática: eventos extremos no Vale do Taquari e na Bacia do Lago Guaíba pode ser acessada AQUI. E a equipe do Mapa de Conflitos a encerra citando um trecho importante do relatório da Ouvidoria, com o qual claramente concorda:

“A reconstrução do Rio Grande do Sul exige mais do que medidas emergenciais. É necessária uma mudança estrutural que passe pelo fortalecimento da agroecologia, pelo planejamento urbano inclusivo e resiliente, pelo respeito e garantia dos direitos territoriais das comunidades tradicionais e pela adoção de políticas públicas comprometidas com a justiça climática. A crise climática não é um fenômeno isolado; é resultado de escolhas políticas, econômicas e sociais que precisam ser urgentemente repensadas. O desafio que se impõe não é apenas de reconstrução, mas de transformação do modelo de desenvolvimento para que desastres como esse não se tornem ainda mais frequentes e devastadores.”

Número de municípios do Rio Grande do Sul afetados pelas enchentes em setembro de 2023 e em abril-maio de 2024. Fonte: Governo do Estado do Rio Grande do Sul, 2024. Disponível em: https://shre.ink/owGx. Acesso em: 14 out. 2025.

 


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