pesquisa internacional prevê 1,8 milhão de casos no país em 2026, com maior impacto no Rio-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

24/02/2026

A dengue não avisa quando decide voltar a bater à porta. Em anos de números mais baixos, como 2025, o perigo costuma passar despercebido. Mas, em 2026, é preciso estar atento: a combinação entre calor intenso, chuvas frequentes e a entrada do sorotipo dengue 3, que não circulava com força no país há anos, levam à projeção de até 1,8 milhão de casos no Brasil, com maior impacto no Sudeste, especialmente no Rio de Janeiro.

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A estimativa integra o InfoDengue–Mosqlimate Dengue Challenge (IMDC), projeto internacional desenvolvido em parceria com a Fiocruz e a Fundação Getulio Vargas (FGV), que cruza dados de clima, densidade populacional e circulação viral para antecipar cenários de risco.

No Rio de Janeiro, apesar da queda expressiva dos registros em 2025, com cerca de 29.300 casos prováveis, contra mais de 300 mil em 2024, quando o estado enfrentou uma epidemia histórica, o vírus segue ativo.

— A dengue segue presente no país, com ampla circulação viral e dificuldades persistentes no controle do mosquito transmissor. O risco aumenta à medida que o vírus avança para regiões densamente povoadas que não enfrentaram surtos recentes, formando um grande contingente de pessoas suscetíveis à infecção — explica o infectologista Alberto Chebabo, que atua em unidades dos laboratórios Bronstein e Sérgio Franco.

Um dos principais pontos de atenção para os próximos anos, segundo o especialista, é a introdução do sorotipo dengue 3. Ausente de forma relevante do Brasil há bastante tempo, ele encontra hoje uma população majoritariamente sem imunidade específica. Embora esteja mais concentrado em São Paulo, o vírus tem potencial de disseminação para estados vizinhos, como Minas Gerais e Rio de Janeiro.

O cenário climático do Sudeste também contribui para esse avanço, aponta Chebabo. Temperaturas elevadas aceleram o ciclo de vida do Aedes aegypti, enquanto períodos de chuva ampliam a oferta de criadouros. Com o vírus em circulação, essa combinação cria condições favoráveis para a elevação dos casos e amplia o risco de novas epidemias.

Mesmo com o avanço da vacinação, especialistas como Chebabo e Eduardo Faria, infectologista do Hospital Samaritano Barra, da Rede Américas, reforçam que a principal estratégia de controle da doença continua sendo a eliminação dos focos do mosquito.

— Especialmente a remoção de qualquer recipiente que acumule água parada, como pneus, vasos e pratos de plantas, caixas-d’água abertas, ralos descobertos, calhas entupidas e piscinas abandonadas. A combinação de água acumulada e altas temperaturas cria um ambiente ideal para a deposição dos ovos e a rápida proliferação do Aedes aegypti, que é um mosquito doméstico e muito adaptado aos ambientes urbanos — explica Faria.

Chebabo frisa que o mosquito precisa de pouquíssima água limpa para se reproduzir.

— Uma tampinha de refrigerante já é suficiente, enquanto uma caixa-d’água destampada se transforma em um grande criadouro. Quando cada morador faz a sua parte, o impacto é coletivo — ressalta Chebabo.

O uso de repelentes também é apontado como uma medida importante para reduzir a exposição individual às picadas, sobretudo em períodos de maior circulação do vetor. Produtos à base de icaridina oferecem proteção prolongada e devem ser reaplicados conforme orientação do fabricante, sempre após o uso do protetor solar.

— É uma medida importante e muitas vezes subestimada, funcionando como uma proteção adicional. Repelentes à base de icaridina costumam ter maior tempo de proteção, podendo durar de dez a 12 horas, enquanto os derivados de DEET geralmente exigem aplicações mais frequentes — diz Faria, acrescentando que telas em portas e janelas também são eficazes, enquanto o uso contínuo de inseticidas domésticos deve ser evitado. — As telas funcionam como barreira mecânica eficaz. Já os inseticidas devem ser usados com cautela, pois apresentam risco de toxicidade, sobretudo para idosos e crianças. Quanto aos repelentes de tomada, não há consenso sobre sua eficácia.

No campo clínico, os sintomas iniciais da dengue costumam ser confundidos com outras viroses, alerta o infectologista. Febre alta, dor de cabeça intensa, dor atrás dos olhos e dores musculares estão entre as manifestações mais comuns.

— A ausência de sintomas respiratórios, como tosse e coriza, ajuda a diferenciar a doença de gripes e resfriados. A fase mais crítica ocorre quando a febre começa a ceder. Nesse período, podem surgir sinais de alarme, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes, tontura, fraqueza e sangramentos, que indicam risco de evolução para formas graves e exigem atendimento médico imediato. O diagnóstico precoce é decisivo para evitar complicações, permitindo a adoção rápida de medidas como hidratação adequada e, quando necessário, internação — explica Chebabo.

Atualmente, o Brasil conta com duas vacinas contra a dengue. A Qdenga, da Takeda, é aplicada em duas doses e já está em uso no país. No SUS, a vacinação prioriza adolescentes de 10 a 14 anos, enquanto na rede privada a vacina está disponível para pessoas de 4 a 60 anos.

A vacina do Instituto Butantan, de dose única, começou a ser incorporada gradualmente ao SUS e ainda integra estudos de vacinação em massa em algumas cidades. A expectativa é ampliar seu uso à medida que a produção aumente, com foco inicial na população acima de 50 anos. Essa vacina não será oferecida na rede privada.

Para a infectologista Renata Beranger, do Hospital Samaritano Botafogo, a vacinação representa um avanço importante, mas não substitui os cuidados cotidianos.

— A vacina é uma ferramenta essencial, mas o enfrentamento da dengue depende de uma estratégia combinada. Para reduzir o impacto em 2026, vacinação, prevenção e acompanhamento médico precisam caminhar juntos — ensina.


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