Pesquisador da Fiocruz é nomeado diretor de programa especial sobre doenças tropicais da OMS
Júlio Pedrosa (Fiocruz Amazônia)
Médico infectologista da Fiocruz, Marcus Vinicius Guimarães Lacerda é o novo diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da Organização Mundial de Saúde (OMS). A nomeação foi feita pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, durante painel de seleção com a chancela dos membros do Conselho Coordenador Conjunto (JCB) e dos co-patrocinadores do TDR, entre os quais o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Banco Mundial e a OMS. Marcus Lacerda assumirá oficialmente o programa no início de março deste ano. É a segunda vez que um brasileiro dirige o TDR. O primeiro foi o médico e biofísico Carlos Morel, ex-presidente da Fiocruz.
Pesquisador especialista em Saúde Pública da Fiocruz, Lacerda coordena o Laboratório Instituto de Pesquisas Clínicas Carlos Borborema (IPCCB), vinculado à Fiocruz Amazônia, em Manaus. Médico brasileiro com vasta experiência em pesquisas na área de Medicina Tropical, com ênfase em doenças infecciosas, Lacerda influenciou direta e profundamente as estratégias de eliminação da malária e o campo mais amplo da Saúde Global. Nascido em Taguatinga, próximo a Brasília (DF), graduou-se em Medicina pela Universidade de Brasília (Unb), especializando-se em Infectologia pela Fundação de Medicina Tropical Dr Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), no Amazonas, período em que começou o trabalho com comunidades remotas da Amazônia, enfrentando a malária e outras doenças tropicais. Lacerda é ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) e tornou-se um líder internacional em pesquisa sobre malária, especialmente no manejo e eliminação do Plasmodium vivax.
“Marcus Lacerda é um gigante global da saúde do século 21, que dedicou sua vida profissional a dar visibilidade aos problemas de saúde da região amazônica brasileira e além”, afirmou a diretor-geral do Instituto de Salud Global (ISGlobal) de Barcelona, Quique Bassat, em um recente perfil na publicação The Lancet. “Sua pesquisa fundamental sobre o manejo e eliminação da malária por vivax, seu trabalho incrivelmente rigoroso com a Covid-19 durante as dificuldades da pandemia e seu compromisso em destacar doenças tropicais ainda muito negligenciadas, são todos testemunhos de sua determinação e lealdade em atender às necessidades de seus pacientes e comunidades, além de oferecer soluções concretas”, enfatizou.
Marcus Lacerda tem como principais focos de pesquisa: malária, HIV, histoplasmose, arboviroses, acidentes ofídicos, Covid-19 e outras doenças emergentes. Suas contribuições mais recentes à inovação em saúde pública foram a implementação de profilaxia pré-exposição (Prep) oral e injetável para HIV, a implementação de tafenoquina em dose única para a cura radical de malária vivax, e a implementação da coleta de tecidos post mortem (MITS) para estudo de causas de morte, todos pioneiros na Amazônia brasileira.
É professor do Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical da Universidade do Estado do Amazonas e professor adjunto da University of Texas Medical Branch (UTMB). Ex-professor adjunto da Kent State University e da Tulane University. Tem mais de 460 publicações científicas. Presta consultoria e é parte de comitês e grupos de trabalho no Programa Global de Malária da OMS e consultor no Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes da OMS (GDG) para Quimioterapia contra Malária. Lacerda é pesquisador 1B do CNPq na área da Medicina e editor da Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical e da Frontiers Tropical Medicine.
Como defensor da pesquisa de implementação, a OMS destaca que Marcus Lacerda colaborou com diversas instituições nacionais e internacionais para ajudar a desenvolver e implementar a tafenoquina, a primeira cura radical de dose única para a malária causada pelo Plasmodium vivax, aprovada em 40 anos, atualmente integrando as diretrizes de tratamento da Organização. Seu grupo de pesquisa em Manaus estabeleceu um dos centros de pesquisa clínica mais avançados da Amazônia, reunindo ciência laboratorial, ensaios clínicos e pesquisa de implementação para orientar políticas de saúde. Atualmente, coordena o projeto Telemal, que usa tecnologia para encurtar distâncias e garantir acesso a diagnósticos mais rápidos e tratamento eficaz contra malária para quem vive em localidades remotas no Amazonas.
Lacerda ressaltou sentir-se honrado e animado em ingressar no TDR como diretor. “Estou ansioso para avançar com a Estratégia TDR 2024-2029 e apoiar esforços para traduzir evidências em impacto, especialmente onde as necessidades são maiores. Estou ansioso para fazer parcerias com países e comunidades para fortalecer a capacidade, apoiar a liderança local e construir sistemas sustentáveis que perdurem”, salientou.
TDR
Criado em 1975, o Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da OMS é uma colaboração científica global entre parceiros como a Fiocruz, a Unicef e o Banco Mundial, para desenvolver soluções inovadoras e fortalecer a capacidade de pesquisa local, visando melhorar a Saúde Global. A iniciativa financia e apoia a pesquisa para combater doenças infecciosas que afetam os mais pobres, utilizando uma abordagem de Saúde Única (One Health), com foco em doenças negligenciadas como a doença de Chagas, a dengue, a leishmaniose, a oncocercose e a doença do sono. Também tem como objetivo fortalecer centros de pesquisa e formar cientistas em países de baixa e média renda.
Foto: Fiocruz Amazônia
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