Chances de bebê ser hospitalizado nos primeiros dias de vida é grande se a mãe for infectada – Divulgação / Fiocruz
Em estudo publicado na revista Nature, pesquisadores da Fiocruz apontam que crianças que tiveram contato com a chikungunya ainda na barriga da mãe, ou seja, de forma intrauterina, apresentaram 21% maior risco de hospitalização nos primeiros três anos de vida. Para as crianças infectadas na hora do parto, este risco dobrou de tamanho. Outro achado teve relação com o período em que a mãe é infectada pela doença: se ocorreu durante o primeiro ou segundo trimestre da gravidez, as chances da criança vir a ser hospitalizada nos primeiros anos de vida foram 25 e 35% mais altas.
A pesquisa, conduzida no Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), utilizou a Coorte de 100 Milhões de Brasileiros para monitorar dados de 1,8 mil crianças nascidas de mães que tiveram chikungunya durante a gestação por três anos, entre 2015 e 2018. Outras 18 mil crianças que não foram expostas à doença foram analisadas para comparação no mesmo período.
“Os resultados indicam que uma vez que a criança é exposta a chikungunya ainda bebê, independente de ter tido contato com a resposta inflamatória causada pelo vírus na mãe, a doença pode ter consequências duradouras para a saúde da criança”, conta a pesquisadora Mio Kushibuchi, líder do estudo.
As trajetórias das crianças foram acompanhadas desde o nascimento até os três anos de idade, tendo sido contabilizadas as hospitalizações neste período. A pesquisa também avaliou idade materna, escolaridade, raça materna, acesso a serviços de saúde, município de residência e data de nascimento. Os dados foram retirados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e Sistema de Informações Hospitalares (SIH), dentre outros.
Atualmente, o Brasil notifica quase a totalidade de casos mundiais por chikungunya, tendo registrado 95% dos casos pela doença. Porém, o estudo avalia que as mudanças climáticas estão agindo para a disseminação da doença em outros países e contextos ao redor do mundo.
De acordo com o estudo, as manifestações do vírus chikungunya ainda permanecem pouco estudadas quando comparadas a doenças “primas” mais conhecidas, como a dengue e a Zika. Ao nascer, o bebê vem ao mundo sem sequelas visíveis da doença, que podem vir a se agravar à medida que o recém-nascido se torna uma criança. “Justamente por não ter consequências físicas aparentes, a chikungunya pode passar despercebida e, por vezes, as pessoas afetadas podem carregar os sintomas da doença em silêncio”, comenta Kushibuchi. “Tornar público o impacto da doença em crianças expostas ao vírus ainda no útero e o quão isso pode causar hospitalizações, pode ajudar a entender a dimensão desta doença”.
A pesquisadora ainda destaca que a chikungunya precisa de maior atenção em populações em situação vulnerável. “Mães que vivem em comunidades em situação de pobreza e desigualdade, com baixa condição sanitária, são consideradas um grupo de risco, já que o mosquito Aedes aegypti pode transmitir essa e outras doenças, como a dengue, para o feto”, explica.
O artigo também traz recomendações em três esferas. Na dimensão clínica, é indicado que gestantes que contraem a chikungunya recebam acompanhamento pré-natal reforçado, mesmo em fases iniciais da gravidez, e que seus filhos tenham assistência regular contínua nos primeiros dias de vida. Na dimensão política, o estudo avalia que a infecção da chikungunya traz custos altos para o sistema de saúde e, por isso, é necessário investimento em prevenção e vigilância ativa em tempos de epidemia. Ao lado desta, na dimensão governamental, é recomendadp o controle de vetores nas comunidades em situação de vulnerabilidade, em especial, nas cidades e centros urbanos com saneamento precário.
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