A Sociedade Brasileira de Pediatria publicou, em março de 2026, uma nova diretriz que atualiza as recomendações sobre o tratamento e a prevenção da anemia ferropriva em lactentes.
Os autores ratificam que a anemia ferropriva permanece sendo problema de saúde pública grave e persistente, sendo as faixas etárias pediátricas um dos principais grupos de risco.
O documento traz uma revisão sobre metabolismo do ferro, sobre diagnóstico clínico e laboratorial da deficiência deste micronutriente e sugere novas recomendações para a profilaxia e rastreio da doença em crianças.
Metabolismo do Ferro
A eficiência da absorção do ferro está diretamente relacionada a composição alimentar e das necessidades fisiológicas do organismo. Uma adequada acidez gástrica e a presença de ácido ascórbico, favorecem esta absorção, enquanto consumo de fitatos, polifenóis (café e chá), excesso de cálcio e estados inflamatórios prejudicam esta absorção.
Entendendo que existem mecanismos ativos para excreção do ferro pelas fezes, o equilíbrio entre ingestação, absorção, armazenamento e utilização, dependem quase exclusivamente do intestino, tornando central a adequada oferta dietética na prevenção da anemia ferropriva.
Neste sentido, o aleitamento materno deve ser estimulado até no mínimo 6 meses, considerando que o ferro proveniente do leite materno tem alta biodisponibilidade e durante a introdução alimentar, além do aleitamento materno, a família deve ser encorajada a garantir oferta de diferentes alimentos que contém ferro, especialmente carnes diversas já que o ferro heme proveniente destes alimentos também tem maior biodisponibilidade, assim como frutas e hortaliças ricas em vitamina C que auxiliem na absorção do ferro.

Deficiência de Ferro e Anemia Ferropriva
A deficiência de ferro é um continum que pode ser dividido em três estágios: depleção dos estoques, comprometimento do ferro circulante e, por fim, o desenvolvimento da anemia propriamente dita. A ferritina sérica é o principal marcador dos estoques corporais de ferro, mas seus valores podem estar falsamente elevados em contextos inflamatórios. Na Tabela 1 há um resumo sobre as alterações laboratoriais observadas em cada uma das fases.
Tabela 1 – Exames laboratoriais nos diferentes estágios da deficiência de ferro
| Depleção dos Estoques | Deficiência de ferro | Anemia ferropriva | |
| Morfologia das hemácias | Normal | Normal | VCM e HCM ¯ com RDW |
| Ferritina | Diminuída | Diminuída | Diminuída |
| Ferro sérico | Normal | Diminuído | Diminuído |
| TIBC | Normal | Aumentada | Aumentada |
| Saturação de transferrina | Normal | Diminuída | Diminuída |
VCM: volume corpuscular médio, HCM: hemoglobina corpuscular média, RDW: medida de anisocitose (red cell distribuition width), TIBC: capacidade total de ligação de ferro.
Os sintomas (palidez, fadiga, intolerância aos esforços) ocorrem mais frequentemente na fase da anemia, mas podem se apresentar em estágios anteriores, sendo de suma importância identificar a deficiência de ferro preferencialmente antes da anemia instalada, já que o ferro desempenha papel essencial em etapas críticas do desenvolvimento cerebral infantil.
Tratamento da Anemia Ferropriva
A dose recomendada para tratamento de crianças com deficiência de ferro permanece a de 3 a 6 mg/kg/dia de ferro elementar e o tratamento deve ser mantido por três a seis meses. Recomenda-se a realização de hemograma entre 30 e 45 dias do início da terapia a fim de monitorar o aumento da hemoglobina, que deve ser ≥ 1,0 g/dL. Na ausência de resposta, considerar questões como adesão, presença de inflamação ou doença de base que esteja perpetuando o quadro. Ao final do tratamento, espera-se a normalização da hemoglobina e índices hematimétricos (VCM, HCM e RDW), assim como da ferritina sérica.
É importante salientar que embora o documento destaque que não há um sal de ferro superior, sais diferentes apresentam distintas porcentagens de ferro elementar e isso deve ser considerado ao prescrevê-los, sendo fundamental conferir na bula de cada marca esta equivalência.
Medidas de Prevenção
A prevenção deve se iniciar ainda durante a gestação, já que uma adequada reserva de ferro materna contribui para melhores estoques do micronutriente no ferro e consequentemente reduz o risco de anemia no primeiro ano de vida.
O último consenso publicado pela SBP em 2021 trazia recomendações sobre suplementar todos os bebês saudáveis com 1 mg/kg/dia entre os 6 e 24 meses de vida. No entanto, à luz de novas evidências, vem sendo considerada uma abordagem diferente que indica suplementar ferro em doses fixas independente do peso da criança (10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar) em dois ciclos de 3 meses cada que devem ser preferencialmente iniciados aos 6 e 12 meses de vida da criança e devem ser seguidos por um ciclo de 3 meses de pausa. Este esquema considera os dois períodos de maior vulnerabilidade à deficiência de ferro.
Também é fundamental que a estratégia esteja vinculada a orientações voltadas para educação alimentar bem como reconhecimento de fatores que favorecem ou inibem a absorção de ferro.
A recomendação para bebês prematuros segue indicando início da suplementação profilática com 1 mês de vida com 2-4 mg/kg/dia a depender do peso de nascimento até 12 meses, quando a dose deve ser ajustada para 1 mg/kg/dia até que a criança complete 2 anos de idade.
Outra mudança significativa é que a nova diretriz não recomenda investigação laboratorial de crianças saudáveis com alimentação e crescimento adequados, diferente do que era preconizado anteriormente.
Conclusão
As novas diretrizes destacam mais uma vez a importância do aleitamento materno e de orientações alimentares adequadas. Além disso, a SBP vai de encontro com as orientações da Organização Mundial de Saúde sugerindo um manejo mais operacionalizado.
Contudo, o cuidado deve ser individualizado em crianças com fatores de risco ou manifestações clínicas sugestivas de deficiência de ferro.
Comentários
As novas recomendações modificam o que vinha sendo preconizado pela SBP principalmente no que tange a realização de exame de rotina para rastreio de deficiência de ferro com 1 ano de idade e as doses/esquemas de suplementação profilática de ferro.
Na prática, as mudanças podem ser desafiadoras principalmente devido à dificuldade de adesão de muitas famílias à suplementação regular e a dependência de sinais clínicos para identificar deficiência de ferro, geralmente presentes em estágios mais avançados desta deficiência, já que a SBP atualmente se posiciona contra a realização da avaliação laboratorial rotineira.
Veja também: Aleitamento materno e anemia ferropriva em bebês: qual a relação?
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