C om a temporada de influenza se aproximando e a expectativa de um número elevado de casos graves em 2026, somada ao preocupante surto de chikungunya que atinge Dourados com força, onde já foram registradas dezenas de internações, o sistema de saúde de Mato Grosso do Sul se prepara para um período de dupla pressão.
Nesse contexto, a população idosa merece atenção especial. Por apresentar resposta imunológica naturalmente mais reduzida a diversos patógenos, os idosos são particularmente vulneráveis tanto à influenza quanto a complicações de outras infecções respiratórias.
Infectologista, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e com extensa experiência em estudos de vacinas e arboviroses, Julio Croda analisa os desafios imunológicos dessa faixa etária e apresenta detalhes sobre uma nova vacina contra gripe em fase de estudo pelo Instituto Butantan. A formulação, que inclui um adjuvante para potencializar a resposta imune, busca oferecer proteção mais robusta aos idosos em comparação com as vacinas atualmente disponíveis, inclusive a de alta dose.
Além disso, Croda avalia o avanço da chikungunya no estado. Após surtos em Ponta Porã, Fátima do Sul e agora em Dourados, a doença mostra tendência de se espalhar por diferentes municípios sul-mato-grossenses nos próximos dois a três anos, especialmente durante o período sazonal que se estende até o final de abril ou início de maio.
O pesquisador alerta ainda para o risco de sobrecarga no sistema público de saúde, caso a influenza e a chikungunya circulem de forma simultânea nos próximos meses, e reforça a importância da vacinação contra a gripe e das medidas de prevenção contra o mosquito Aedes aegypti.
Em que aspectos essa nova vacina para idosos se diferencia das vacinas contra gripe já existentes?
Julio Croda O idoso, para todas as vacinas, tem uma resposta imunológica menor que a da população geral. A ideia é trabalhar com um adjuvante que estimula essa resposta imunológica. A mesma vacina terá esse adjuvante para garantir uma resposta mais forte. Vamos comparar essa nova vacina com a que já está no mercado, a chamada high dose, que é uma vacina de alta dose do vírus e que também gera uma resposta imunológica aumentada. A ideia é garantir mais proteção. Essa vacina está sendo desenvolvida pelo Instituto Butantan. Se ela for validada e produzir uma resposta imunológica robusta, a expectativa é que possa ser disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a partir de 2027 para essa população.
Por que os idosos respondem de forma diferente? O organismo deles trabalha de forma mais lenta?
Julio Croda A gente fala que a resposta imunológica é mais lenta para proteção contra patógenos,como vírus e eventualmente algumas bactérias específicas. O idoso passa a responder de forma mais lenta para essas doenças. Por isso, a gente precisa de um estímulo maior para essa população. A gente viu isso claramente na Covid-19, onde a maioria das hospitalizações e óbitos ocorreu em idosos. A vacina contra Covid está recomendada atualmente para essa população, assim como a vacina contra pneumococo, que é contra pneumonia. Então temos uma série de vacinas, principalmente para vírus e bactérias. Quando a população não produz uma boa resposta celular, não tem células neutralizando esses vírus ou bactérias, a gente tenta estimular mais o sistema imune para garantir uma maior proteção.
Qual é a expectativa para os casos de influenza neste ano? Devemos ter muitos casos graves?
Julio Croda Sim, a expectativa é essa. O boletim InfoGripe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) já mostra uma tendência de aumento por um período mais prolongado em 22 estados. Nos últimos dois anos pós-Covid, tivemos baixas coberturas vacinais. Precisamos chegar a 90% de cobertura em idosos, gestantes e crianças menores de 6 anos, mas estamos perto de apenas 50%. Por isso, há muitas pessoas suscetíveis à influenza. Se não tivermos uma cobertura vacinal muito elevada este ano, o impacto será enorme. Já observamos um aumento no número de casos aqui no estado em comparação com o mesmo período do ano passado. Além disso, há uma nova variante de H3N2 circulando que aumentou hospitalizações e óbitos no hemisfério norte. A vacina protege principalmente contra as formas graves. Por isso, a vacinação é fundamental este ano.
Muitas pessoas dizem que quem já teve influenza não precisa se vacinar. Isso procede?
Julio Croda Não procede. Todo ano há uma nova campanha justamente porque a proteção cai com o tempo e as cepas mudam. Mesmo quem já teve a doença no passado deve se vacinar, especialmente idosos e crianças pequenas.
Sobre a chikungunya em Dourados, a situação pode se estender para outros municípios de Mato Grosso do Sul?
Julio Croda Sim, a situação é alarmante. Depois de um grande surto em Ponta Porã em 2023 e Fátima do Sul no início de 2026, os focos estão concentrados em Dourados agora. E a tendência é que mais municípios sejam atingidos. A população do estado nunca foi exposta ao vírus em larga escala. As epidemias de chikungunya devem se estender por mais dois ou três anos em diferentes cidades. O período sazonal é de janeiro e vai até o final de abril ou início de maio. Depois disso deve diminuir com o frio, mas o vírus vai continuar circulando e deve voltar com força no próximo verão. Então, a chikungunya veio pra ficar e vai gerar epidemias em diferentes cidades de Mato Grosso do Sul
Essas doenças circulando ao mesmo tempo, influenza e chikungunya, deve impactar bastante o sistema de saúde?
Julio Croda Com certeza. Em Dourados já são mais de 35 pessoas internadas por chikungunya. A partir de abril e durante todo o inverno teremos também o aumento da influenza. Vamos ter pacientes internados pelas duas doenças ao mesmo tempo, o que certamente vai sobrecarregar o sistema de saúde.
O que a população pode fazer imediatamente para reduzir o risco dessas infecções?
Julio Croda Para chikungunya ainda não temos vacina disponível no SUS, embora haja uma em negociação. Para influenza, temos vacina. É muito importante que a população, especialmente nas cidades com surto de chikungunya, se vacine contra a gripe para evitar hospitalizações e reduzir a pressão sobre os serviços de saúde
Por fim, qual a importância da ciência e da pesquisa nesse momento?
Julio Croda A prevenção é a melhor maneira de evitar essas doenças. Para as arboviroses, nós temos a vacina da dengue. Fizemos um grande estudo em Dourados, onde vacinamos mais de 92 mil habitantes. Tanto que hoje estamos tendo chikungunya, mas não estamos tendo dengue em Dourados. Aqui em Campo Grande, trouxemos o projeto Wolbachia, e este ano não estamos tendo casos de chikungunya e nem de arboviroses.. A gente sabe que esse é o caminho. A ciência tem contribuído diretamente para a prevenção, para salvar vidas, evitar hospitalizações e diminuir a pressão sobre o serviço de saúde. Por isso é muito importante valorizar a ciência, investir em ciência e em novas tecnologias para o controle dessas epidemias.
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