VPPCB no Medtrop: contribuições do Brasil Saudável e pesquisas translacionais têm centralidade-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

03/12/2025

O sistema econômico produz doenças. Esta constatação atravessou parte do debate em mesas-redondas do 60º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (Medtrop 2025), realizado de 2 a 5 de novembro, em João Pessoa (PB). Representantes da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB/Fiocruz) participaram do encontro e discutiram questões relacionadas à doença de Chagas, parasitoses, leishmanioses, Aids, malária, hanseníase, tuberculose, o Brasil Saudável, além do papel de seu Programa de Pesquisa Translacional, das coleções biológicas e dos biobancos no contexto da ciência aberta e da inovação.

 

Alda Maria da Cruz na abertura da mesa que discutiu as contribuições do Programa Brasil Saudável (foto: Vítor Rangel)
Alda Cruz durante abertura da mesa que discutiu as contribuições do Programa Brasil Saudável (fotos: Vítor Rangel)

 

Determinantes sociais na doença de Chagas

A vice-presidente da VPPCB/Fiocruz, Alda Maria da Cruz, mediou a miniconferência de Alberto Novaes Ramos Júnior, professor da UFCE, sobre determinantes sociais da doença de Chagas. Ele propôs uma leitura que ultrapassa a bancada do laboratório: compreender Chagas exige entrar nos territórios onde ela se renova há 116 anos — espaços marcados por desigualdades, dinâmicas econômicas predatórias e vulnerabilidades históricas.

Alberto lembrou que a doença funciona como um raio-X social: revela pobreza, mas também camadas menos visíveis da determinação social e ambiental — raça, gênero, estigma, migração, violência. Mesmo quando aparece em países da Europa, EUA e Canadá, o que fala mais alto é o rastro das migrações. Hoje, cerca de 8 milhões de pessoas convivem com a enfermidade nas Américas.

O debate reforçou que olhar para a doença de Chagas é olhar para conflitos territoriais, ausência de Estado, produção de desigualdades e até o impacto silencioso da Covid-19 sobre mortalidade. Iniciativas como o Integra Chagas — com 47 mil testes rápidos e a tentativa de integrar atenção básica, vigilância e leitura do ambiente humano, animal e ecológico — mostram caminhos possíveis, mas dependem da gestão qualificada de informações, diálogo com as ciências sociais e o reconhecimento político das pessoas afetadas. Como dizem representantes dos movimentos sociais: não basta tratar, é preciso serem vistas.

Parasitoses intestinais 

As parasitoses intestinais comprometem o desenvolvimento infantil, gerando atraso escolar e efeitos espoliativos. Em mesa dedicada ao tema, especialistas defenderam a centralidade da prevenção e o engajamento de municípios e estados no monitoramento local. A campanha de combate a verminoses em escolas na Bahia e na ilha de Marajó (PA) foi citada como experiência exitosa, por atuar fora das unidades de saúde e envolver universidades em ações de extensão – um lembrete de que mudança de comportamento passa por educação em saúde.

A mesa – com Alda, Luiza Mayor (Ministério da Saúde), Israel Santos (UFAL), Maria Fantinatti da Silva (Uerj) – criticou o foco excessivo no diagnóstico e tratamento, defendendo uma abordagem biopsicossocial que considere integralmente a vida das pessoas. O exame parasitológico de fezes, simples e eficiente, foi apontado como tecnologia ameaçada de desaparecer, apesar de ser essencial ao contexto brasileiro.

Leishmanioses

Na mesa É possível otimizar as estratégias de desenvolvimento de medicamentos e encurtar caminho para novos esquemas terapêuticos para as leishmanioses?, especialistas destacaram a necessidade de organização e profissionalização do setor público para desenvolver novos fármacos. Por serem doenças socialmente determinadas e sem apelo comercial, as leishmanioses dependem de investimento estatal consciente. Participaram da discussão Ana Rabelo e Elaine de Morais Teixeira, ambas da Fiocruz Minas; Juliana Quero Reimão, da Faculdade de Medicina de Jundiaí; Gustavo Adolfo Sierra Romero, da UnB; e André Daher, da VPPCB/Fiocruz. 

Debateu-se o desequilíbrio entre o Norte e o Sul global na transferência de tecnologias – como evidenciado no caso do RNA mensageiro (mRNA) durante a pandemia – e o papel da pesquisa clínica em suprir lacunas deixadas pela indústria. Entre os caminhos possíveis, destacou-se o fortalecimento do arcabouço regulatório e o papel das pesquisas já prontas para avançar para o estágio industrial.

Uma segunda mesa sobre Imunopatologia das leishmanioses, composta por Alda, Dorcas Lamounier Costa (UFPI), Daniel Gomes (UFES), Hiro Goto (USP) e Lucas Pedreira de Carvalho (UFBA), tratou dos desafios da leishmaniose cutânea, tratamento e eficácia dos medicamentos, tipos de infecções na pele e lesões, e avanços recentes em pesquisas.

Contribuições do Programa Brasil Saudável

No simpósio 125 anos do IOC: Contribuições de destaque para o programa Brasil Saudável, Alda moderou as palestras sobre HIV, malária, hanseníase, tuberculose, doença de Chagas e outros agravos, apresentadas, respectivamente, pelas pesquisadoras do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) Monick Guimarães, Marilza Herzog, Roberta Olmo, Anna Cristina Carvalho e Tania Araujo-Jorge.

A mesa dialoga com o Brasil Saudável – iniciativa coordenada pelo Ministério da Saúde, com participação de 14 ministérios, disse Alda. Os temas incluíram eliminação da transmissão vertical do HIV (com transmissão de mães para bebês); situação da malária em território Yanomami; desafios do serviço de referência em hanseníase; eliminação de doenças socialmente determinadas; e o histórico da tuberculose, vinculada à industrialização, à urbanização e às migrações desde o século XIX. “As doenças têm relação com o capitalismo”, sintetizou Anna Carvalho, lembrando que os índices de tuberculose na Inglaterra caíram não com o uso de medicamentos, mas, sim, quando as condições de vida melhoraram.

Na ocasião, o IOC concedeu a Medalha José Rodrigues Coura de Honra ao Mérito Científico a Alejandro Luquetti, da Universidade Federal de Goiás, pelo conjunto de contribuições à área da doença de Chagas.

As redes do Programa de Pesquisa Translacional

Na sessão As Estratégias de atuação dos programas translacionais da Fiocruz: desafios e perspectivas, foram apresentados panoramas das nove redes de pesquisa ligadas ao Programa de Pesquisa Translacional da VPPCB. A coordenação da Fio-Schisto enfatizou a adaptação de diretrizes internacionais ao contexto brasileiro; as da Fio-Chagas e da Uma Só Saúde ressaltaram a articulação interinstitucional e interdisciplinar; e a da Fio-Leish detalhou o projeto para modelos experimentais de infecção natural. 
Da Fio-Mucosa, ressaltou-se a importância de infraestrutura especializada e da integração entre equipes. Já na Fio-Câncer, destacou-se o desafio de articular oncologia e doenças infecciosas. E da Fio-Nano e Fio-Meta evidenciaram a ampliação de parcerias nacionais e internacionais, além do fortalecimento de estudos em áreas emergentes como nanotecnologia, envelhecimento e doenças metabólicas.

 

coordenações da redes do Programa de Pesquisa Translacional
Coordenação de cada rede do Programa de Pesquisa Translacional enfatizou histórico de trabalho e ações atuais

 

Coleções biológicas e biobancos

A VPCBB esteve representada por Aline Souto no debate sobre os Biobancos, ciência aberta e inovação: acelerando o futuro da medicina tropical através do compartilhamento de materiais biológicos. Nesta mesa, houve destaques para a relevância das coleções biológicas e dos biobancos para ampliar o acesso a materiais de pesquisa e fortalecer sua divulgação. Os acervos preservados constituem base estratégica para a ciência e o desenvolvimento tecnológico. O debate também abordou o contexto da ciência aberta e do trabalho da Rede Lusófona de Biobancos e Coleções Biológicas, da qual a VPPCB participa por meio da Coordenação de Coleções Biológicas. 

 


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