Ebola: casos suspeitos seguem em investigação no Brasil; veja o que se sabe até o momento-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

31/05/2026

OMS declara surto de ebola no Congo e em Uganda uma emergência de saúde pública global

A OMS afirma que o novo surto não atende aos critérios para uma emergência pandêmica e aconselha contra o fechamento de fronteiras internacionais. Crédito: AP Newsroom

Os dois casos suspeitos de contaminação pelo vírus ebola ainda seguem em investigação por órgãos de saúde em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os pacientes estiveram na República Democrática do Congo e em Uganda, países que vivem um surto da doença. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, no dia 17, emergência de saúde pública de importância internacional.

Um trabalhador da saúde passa pano no chão do centro de tratamento de Ebola em Rwampara, Congo, na sexta-feira, 29 de maio de 2026 Foto: Moses Sawasawa

No entanto, a OMS afirma que a situação atual não preenche os critérios de risco para uma pandemia. A hipótese de contaminação global é considerada baixa pelo órgão. O atual surto no Congo e em Uganda é causado por uma cepa rara, conhecida como bundibugyo, para a qual não existe vacina ou um tratamento específico.

O que se sabe sobre o caso de São Paulo

O caso em investigação em São Paulo é de um homem de 37 anos, de procedência da República Democrática do Congo, e que esteve no país recentemente. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo (SES-SP), ele apresentou sintomas como febre, preenchendo a definição de caso suspeito. O homem segue internado em isolamento no Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

Neste sábado, 30, a secretaria afirmou que um exame de reação de qPCR realizado no paciente detectou infecção pela bactéria Neisseria meningitidis, causadora de meningite meningocócica. A pasta informa que a investigação para ebola e outros diagnósticos virais segue em andamento “até a conclusão das análises laboratoriais e genômicas”.

Paciente com suspeita de ebola em São Paulo segue internado em isolamento no Hospital e Instituto de Infectologia Emilio Ribas Foto: NILTON FUKUDA

“Há confirmação laboratorial da bactéria causadora da meningite meningocócica pelo Instituto Adolfo Lutz, dentro do processo de diagnóstico diferencial. Ainda assim, a investigação para ebola permanece em andamento até a conclusão das análises específicas”, afirmou Regiane de Paula, coordenadora em Saúde da Coordenadoria de Controle de Doenças da SES-SP, em comunicado divulgado pela secretaria.

O que se sabe sobre o caso do Rio

No Rio de Janeiro, o caso suspeito envolve um paciente que esteve recentemente em Uganda. Por ter apresentado sintomas de tosse, calafrios e diarreia, e devido ao histórico de viagem, foi acionado o protocolo de segurança para atendimento especializado e isolamento até diagnóstico conclusivo, segundo informou a Fiocruz. O paciente segue internado no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), também em isolamento.

A Fiocruz afirmou que, na manhã deste domingo, 31, análises feitas pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) em amostras de saliva e urina apresentaram resultado negativo para ebola. Na noite de sábado, 30, foi constatado resultado positivo para malária. No entanto, a Fiocruz afirmou que o teste diagnóstico referente à amostra de sangue segue em andamento, e que novas informações serão atualizadas tão logo o teste seja concluído.

A Secretaria Municipal de Saúde do Rio (SMS-Rio) afirmou que o caso segue em investigação pela pasta, em conjunto com a Secretaria de Estado de Saúde e a Fiocruz, “até que toda testagem e avaliações relevantes ao diagnóstico sejam concluídas”. Pessoas que tiveram contato com o paciente também seguem em monitoramento de forma preventiva.

“O viajante não possui todos os critérios para se enquadrar na definição de caso suspeito para ebola, porém, considerando o cenário epidemiológico internacional, e por precaução, foi ativada a investigação e condução do caso para possível febre hemorrágica viral (FHV), além de outras possíveis doenças”, acrescentou a SMS-Rio.

Por que suspeita de ebola ainda não pode ser descartada

Segundo o virologista Flávio Fonseca, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mesmo com os diagnósticos de meningite e malária, não é possível descartar a infecção também por ebola até que todos os testes necessários sejam concluídos.

“Isso porque são pacientes que vêm de regiões onde ocorrem várias doenças. Então, esses pacientes estão sujeitos a múltiplas infecções e toda infecção é uma janela, uma oportunidade para múltiplas infecções, porque ela afeta o sistema imunológico, afeta a condição do indivíduo de combater uma doença”, disse Fonseca.

O virologista explicou que o diagnóstico para o ebola é baseado em testes moleculares e sequenciamento genômico, o que leva tempo.

“Você tem que fazer um sequenciamento massivo de amostra vinda desse paciente, análise filogenética e análise computacional para tentar achar algum indício de que esse paciente possa estar infectado”, detalha Fonseca.

O caso é ainda mais delicado devido ao fato de o atual surto na África estar relacionado à cepa bundibugyo, que não é convencional.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, no centro à direita, visita o Centro Médico Evangélico (CEM) em Bunia, no Congo, neste domingo, 31 de maio de 2026. Foto: Moses Sawasawa

“O bundibugyo é o mais raro dos três tipos de ebola. Então, a gente está ainda menos preparado para fazer o diagnóstico. Por isso os testes são feitos quase que de forma artesanal, digamos assim”, acrescenta o virologista.

O infectologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Ivan Marinho, também reforça que a investigação dos dois casos deve ser levada até o fim, já que, devido à gravidade do atual surto na África, existe a possibilidade de introdução da doença no Brasil.

“É preciso levar a investigação até o fim pela gravidade de toda a circunstância e a possibilidade da introdução dessa doença no nosso País. Então, existe um protocolo e esse protocolo precisa ser concluído”, destacou o infectologista.

A dimensão do surto na África

A OMS afirmou que os casos de ebola no Congo e em Uganda estão se disseminando rapidamente, com aumento de número de casos, distribuição geográfica e eventos de transmissão entre fronteiras.

Até o dia 29, a OMS confirmou um total de 906 casos suspeitos para ebola reportados no Congo, com 223 mortes. Foram 124 casos confirmados (nove em Uganda) e 18 mortes confirmadas (uma em Uganda). No dia 19, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, disse estar “profundamente preocupado com a escala e a velocidade da epidemia”.

No último dia 21, um artigo publicado na revista Nature destacou que pesquisadores estão preocupados com a velocidade com que os casos de ebola estão se acumulando no atual surto. O texto destaca que, observando os primeiros 100 dias de incidentes passados, os surtos eram declarados após algumas dezenas de casos. Mas este, causado pela rara espécie do vírus bundibugyo, já tinha 246 casos suspeitos quando o surto foi declarado.

Risco de surto no Brasil

A Fiocruz afirma que o risco de transmissão de ebola no Brasil é considerado baixo.

Já a avaliação técnica da SES-SP aponta que o risco de introdução da doença no Brasil e na América do Sul permanece muito baixo. Entre os fatores considerados pela secretaria estão a ausência histórica de transmissão autóctone no continente sul-americano, a inexistência de voos diretos entre a região afetada e a América do Sul e a forma de transmissão da doença, que exige contato direto com sangue, secreções, fluidos corporais ou tecidos de pessoas sintomáticas infectadas.

Sintomas da doença

Segundo o Ministério da Saúde, a infecção pelo vírus ebola causa os seguintes sintomas:

  • Febre;
  • Cefaleia;
  • Fraqueza;
  • Diarreia;
  • Vômitos;
  • Dor abdominal;
  • Inapetência (falta de apetite);
  • Odinofagia (dor ao engolir);
  • Manifestações hemorrágicas.

O período de incubação da doença pode variar de dois a 21 dias, com o período mediano de cinco a 10 dias sendo verificado na maior parte dos casos. A pasta destaca que os pacientes tornam-se contagiosos apenas quando começam a apresentar os sintomas.

Transmissão

Segundo a SES-SP, o maior risco de contágio está associado ao contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas, especialmente nas fases mais avançadas da doença. A Fiocruz destaca que o vírus não é transmitido por via respiratória e que não há transmissão durante o período de incubação.


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