Com a proposta de debater ciência fora do ambiente acadêmico, o Festival Internacional de Divulgação Científica Pint of Science teve sua nona edição realizada em Salvador nos dias 18, 19 e 20 de maio, na Cervejaria ArtMalte. Organizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Bahia e Universidade Federal da Bahia (Ufba), o evento proporcionou bate-papos sobre temas como ciência nas periferias e democratização de saberes de tecnologia e saúde. A atividade reuniu cerca de 350 pessoas nos três dias e contou ainda com um esquenta musical.
De acordo com Valéria Borges, pesquisadora da Fiocruz Bahia e coordenadora geral do festival em Salvador desde 2024, eventos como o Pint of Science são fundamentais em um contexto marcado pelo fortalecimento de movimentos que negam evidências científicas e impactam diretamente a sociedade. “No período pós-pandemia da Covid-19, a disseminação de fake news e da desinformação ganhou proporções ainda mais preocupantes. Nesse contexto, eventos de divulgação científica assumem um papel fundamental, pois também fortalecem a participação social e estimulam o pensamento crítico”, observou.
A pesquisadora explicou que o compromisso do Pint of Science é aproximar a ciência da população, promovendo debates acessíveis em espaços não institucionalizados, fora dos laboratórios e universidades. “Isso é muito importante porque rompe barreiras e mostra que a ciência faz parte da vida cotidiana”, observou.
Para Valéria, iniciativas como essa traz pelo menos três impactos sociais: “Permitir que o público conheça e compreenda o que está sendo produzido dentro das universidades e centros de pesquisa; aproximar as pessoas dos próprios cientistas, ajudando a desconstruir estereótipos, como a ideia de que cientista é apenas um homem branco de jaleco; e reforçar a mensagem de que a ciência está em tudo e deve ser acessível a todas as pessoas”.
Participante do festival como monitor, Robson Purificação, estudante de Medicina da UFBA e bolsista de iniciação científica na Fiocruz Bahia, compartilhou sua experiência. “Na minha primeira graduação, vivi pouco as possibilidades da universidade, porque trabalhava em emprego formal e ia apenas para as aulas. Agora, mais maduro, na segunda graduação, decidi viver essa experiência de ter contato com a pesquisa. Então conheci o pessoal da organização do Pint. Mesmo sendo a nona edição, eu nunca tinha ouvido falar. Me candidatei para ajudar na organização e participei no primeiro dia. Foi uma experiência sensacional. Estar em um ambiente descontraído falando de ciência é algo muito legal e diferente”, afirmou Robson.
Gerônimo Santos, estudante de Jornalismo da UFBA, relatou que o evento foi marcado por aprendizado e reflexões. “Estar pela primeira vez em um evento que reúne pessoas tão importantes em diversas áreas para divulgar ciência foi incrível. Pude me projetar naqueles relatos e continuar minha caminhada. Além disso, é esperançoso ver que, em comunidades que antes eram muito isoladas, o fazer científico consegue ser reconhecido e potencializado”, destacou.
Valéria Borges ressaltou ainda que, em 2027, o festival terá uma edição histórica na cidade, celebrando os dez anos da chegada do evento à capital baiana. “Queremos construir uma programação especial que resgate essa trajetória e mostre como o Pint se consolidou como um importante espaço de aproximação entre ciência e sociedade. Também temos o desejo de produzir um mini documentário sobre os 10 anos do Pint of Science Salvador, registrando os impactos do festival na popularização da ciência e na democratização dos saberes ao longo dessa década. Será uma oportunidade de preservar essa memória e ampliar ainda mais o alcance do projeto”, concluiu.





Muitas mãos e mentes promovendo o diálogo
Durante os três dias de programação, foram debatidos temas como ciência cidadã nas comunidades, democratização dos saberes em ciência, tecnologia e saúde, além de uma mesa dedicada à informação e à prevenção das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
O evento contou com a participação de cientistas de destaque em diferentes áreas de atuação, incluindo vozes negras e LGBTQIAPN+, com o objetivo de fortalecer uma ciência mais diversa e inovadora. A programação também teve predominância de mulheres cientistas, em alinhamento ao tema da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Para a realização do festival, foi formada uma comissão local composta por professores, pós-graduandos e pós-doutorandos, que atuaram antes, durante e depois do evento. Além disso, 45 estudantes voluntários de graduação e pós-graduação das duas instituições foram selecionados por meio de inscrições e entrevistas para colaborar em diferentes funções durante os debates.
Sobre o festival
Criado em 2013, em Londres, o Pint of Science surgiu da iniciativa de jovens pesquisadores interessados em compartilhar suas descobertas em bares e restaurantes. Atualmente presente em 27 países. O festival chegou ao Nordeste em 2017, trazido pelo professor da UFBA, Denis Soares, que coordenou a edição soteropolitana até 2023. Desde 2024 o Pint Salvador é conduzido pela pesquisadora Valéria Borges, da Fiocruz Bahia. A edição de 2026 foi realizada em 213 cidades brasileiras, sendo cinco delas na Bahia (Alagoinhas, Amargosa, Barreiras, Jequié e Salvador) .
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