Ministro da Saúde Alexandre Padilha e o presidente da República Lula da Silva – Foto Marcelo Camargo-Agência Brasil
A tecnologia de alimentos que Padilha ataca é a mesma que permitiu ao Brasil avançar em segurança alimentar nas últimas décadas.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em reunião na Assembleia Mundial da Saúde, em Genebra, propôs ao mundo a regulação global dos chamados alimentos ultraprocessados (UFP). Disse que as fórmulas infantis são o primeiro ultraprocessado que tentam fazer o ser humano comer, em substituição ao leite materno. Acusou a indústria alimentícia de querer capturar os orçamentos públicos destinados à merenda escolar.
Comparou empresas que produzem alimentos a conglomerados que sonham em fazer todo mundo comer a mesma coisa para maximizar lucros. Foi um ataque frontal, público e documentado contra um dos setores mais importantes da economia brasileira. E ninguém do setor respondeu. Silêncio!
Em paralelo, tramitam no Senado projetos de lei para proibir ultraprocessados em escolas e hospitais públicos e privados, sem qualquer clareza sobre o que, afinal, é um alimento ultraprocessado. A confusão é geral. Os próprios criadores do sistema Nova reconhecem que a definição que inventaram não serve como base para uma política pública de alimentos e tentam redefinir o conceito. Hoje, o marcador operacional é a presença de pelo menos um aditivo alimentar no alimento industrializado.
Esse silêncio tem um custo. Quando acusações graves ficam sem resposta, tornam-se verdade por omissão. A pergunta que ninguém fez publicamente é simples: o que o lucro das empresas tem a ver com a saúde dos brasileiros? Um ministro da Saúde tem a obrigação de defender a saúde pública com base em evidências científicas, não de conduzir uma cruzada contra o modelo de negócios de um setor inteiro. Falar em produção absurda e em captura de orçamentos públicos não é linguagem ministerial. É panfleto.
A fala sobre fórmulas infantis é a mais grave. Há mães que não conseguem amamentar por razões médicas, hormonais ou anatômicas. Há bebês com problemas inatos do metabolismo para os quais a fórmula metabólica não é uma opção; é uma questão de sobrevivência.
Os parlamentares que conduzem esses projetos: senadores Eudócia Caldas (PSDB-AL), Fernando Dueire (PSD-PE), Mara Gabrilli (PSD-SP), Jacques Wagner (PT-BA) e Teresa Leitão (PT-PE) têm o direito e o dever de legislar sobre alimentação. O que não têm é o direito de fazê-lo com base numa definição imprecisa cujas consequências para pacientes vulneráveis não foram avaliadas.
O público precisa saber pelo que eles estão lutando: não pela proibição do salgadinho de pacote. Pela proibição de qualquer alimento embalado que contenha um aditivo considerado seguro. Isso inclui o suplemento do atleta com déficit nutricional, o biscoito sem glúten para celíacos e os adoçantes para pessoas com diabetes.
Há uma dimensão científica que o debate ignora. O professor Gunter Kuhnle, da Universidade de Reading, analisou mais de 8,6 mil artigos sobre ultraprocessados e identificou um padrão revelador: a dominância do Brasil na produção científica sobre UPF é marcante, reflexo de uma rede acadêmica concentrada em torno dos criadores da classificação Nova, na Universidade de São Paulo (USP).
Não é irrelevante notar que os artigos da The Lancet invocados na resolução brasileira à Organização Mundial da Saúde (OMS) foram escritos pelos próprios proponentes do sistema Nova e financiados pela Bloomberg Philanthropies, organização que historicamente apoia o ecossistema de Classificado como Confidencial advocacy em torno da agenda anti-ultraprocessados no Brasil e no mundo.
Não é fraude. É conflito acadêmico estrutural. São os mesmos estudos observacionais de sempre, com os mesmos vieses, em nova roupagem. David Ludwig, professor de Harvard sem vínculo com a indústria, concluiu que nenhum ensaio clínico randomizado demonstrou benefícios a longo prazo em desfechos relacionados à obesidade ao reduzir o consumo de ultraprocessados.
A proposta se apoia no sistema Nova, que classifica os alimentos pelo grau de processamento industrial. O Codex Alimentarius, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da OMS, examinou a adoção do conceito de ultraprocessados como critério regulatório e foi claro: a evidência disponível não sustenta o uso do sistema Nova como base para políticas harmonizadas globalmente.
E há, ainda, uma ironia que a indústria deveria denunciar: o Codex existe para permitir que o comércio entre países ocorra sem barreiras regulatórias arbitrárias. Ao propor que cada país adote sua própria definição de ultraprocessado, o ministro estimula exatamente a fragmentação que o Codex foi criado para evitar. A ironia é difícil de ignorar: o País propõe um modelo que criaria barreiras ao próprio comércio que sustenta boa parte de sua economia.
A tecnologia de alimentos que o ministro ataca é a que permitiu ao Brasil avançar em segurança alimentar nas últimas décadas. Alimentos com maior prazo de validade chegam a regiões sem cadeia do frio. Alimentos enriquecidos reduziram as deficiências nutricionais em populações vulneráveis.
Combater a indústria em Genebra é muito mais fácil do que enfrentar a desnutrição no Semiárido ou a falta de infraestrutura básica de saúde que mata brasileiros todos os dias. Um ministro que escolhe a causa que dá “Ibope internacional” em vez dos problemas que exigem solução doméstica não está governando. Está surfando no ativismo. E enquanto ele surfa, a indústria que deveria responder permanece em silêncio. Até quando? (Márcia Terra, é nutricionista e consultora em Ciência de Alimentos (Estadão, 4/6/26)
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