Menos brasileiros culpam Bolsonaro pela pandemia – 19/05/2026 – Equilíbrio e Saúde-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

20/05/2026

A parcela de brasileiros que considera que outra postura do governo Jair Bolsonaro teria reduzido as mortes por Covid caiu de 62% para 40,5% entre 2023 e 2026, queda de 21,5 pontos percentuais em três anos.

O dado é de pesquisa do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), conduzida pelo Instituto Ideia entre 26 de fevereiro e 1º de março de 2026, com 1.500 entrevistados, margem de erro de 2,5 pontos percentuais e 95% de confiança.

Os resultados indicam enfraquecimento da memória crítica sobre a gestão federal da pandemia, um movimento que os pesquisadores atribuem à polarização política e ao distanciamento temporal da crise.

Questionados se outra conduta do governo teria reduzido as mortes por Covid, 40,5% responderam sim, 28,6% responderam não e 30,9% disseram não saber. O resultado representa uma queda expressiva em relação a 2023, quando 62% responderam sim —48,3% diziam “sim, muito menos mortes” e 13,7% “sim, um pouco menos”—, apenas 13% diziam não e 11,5% não sabiam.

O Brasil chegou à marca de 700 mil óbitos pela doença em 2023. A maior quantidade de mortes foi registrada antes do início da vacinação, em janeiro de 2021 —em abril daquele ano, o país já somava 400 mil vidas perdidas para o coronavírus.

O então presidente questionou as medidas de proteção, em especial a política de isolamento, distribuiu remédios ineficazes contra a doença, incentivou aglomerações, atuou contra a compra de vacinas, espalhou informações falsas sobre a Covid e fez campanhas de desobediência a medidas de proteção, como o uso de máscaras.

Segundo a pesquisa, a divisão política é a principal variável sobre a memória da pandemia. O “sim” vai de 63,5% entre eleitores de Lula para 20,8% entre eleitores de Bolsonaro. Entre os que se declaram de esquerda, chega a 71%; entre os de direita, cai para 15,6%.

A leitura sobre a pandemia deixou de ser ancorada em fatos para se tornar matéria de disputa ideológica, avalia Pedro Arantes, professor da Unifesp e coordenador do levantamento. “Não se trata de juízo ancorado em fatos e evidências, mas de opinião reorganizada pelo conflito político e ideológico”, afirma.

O distanciamento temporal, a reorganização política do país em torno de outros conflitos e a ausência de uma política sistemática de memória pública contribuíram para esse esquecimento, avalia. “O governo Lula pode ter contribuído para esse processo ao não dar centralidade política à responsabilização pela pandemia, deslocando sua agenda para o julgamento do golpe de Estado”, acrescenta.

A pesquisa aponta ainda que a adesão às campanhas nacionais de vacinação permanece estabilizada em 72,1%, patamar semelhante ao de 2023, mas bem abaixo dos níveis históricos do PNI (Programa Nacional de Imunizações), que chegou a registrar coberturas próximas a 100% em alguns imunizantes antes de 2016.

Dos 28% fora da adesão plena, cerca de um terço é declaradamente antivacina (9,9%), um terço deixou de se vacinar após a pandemia e um terço é formado por indecisos e indiferentes. Segundo Arantes, os dois últimos grupos —que somam cerca de 18%— ainda podem ser alcançados por campanhas de defesa da vacinação.

Mesmo após três anos de governo federal não negacionista, com retomada de campanhas e ampliação da oferta, a adesão autodeclarada não voltou ao patamar anterior, diz Arantes. “Houve um dano que parece duradouro à confiança pública nas vacinas, provocado pela desinformação, pelo negacionismo científico e pela atuação criminosa de agentes políticos”, afirma.

A queda é especialmente marcante entre jovens. Entre os entrevistados de 16 a 24 anos, a adesão às vacinas foi de 62,9%; na faixa de 25 a 34 anos, de 62% —cerca de 16 pontos abaixo da média dos grupos com 35 anos ou mais. Segundo Arantes, o problema não está no crescimento do núcleo antivacina entre os jovens, mas no aumento da indiferença e da baixa mobilização.

O apoio ao julgamento de responsáveis por eventuais crimes associados às mortes na pandemia ainda é majoritário: 45% são favoráveis, contra 27,2% contrários e 27,8% indecisos. Mas o índice também recuou, uma vez que chegava a 51,5% em 2023. A queda foi maior entre faixas de maior renda: entre os que ganham cinco salários mínimos ou mais, o apoio caiu de 58,9% para 34,3%.

Os entrevistados foram ainda perguntados o que deveria ser feito para justiça e reparação dos crimes da pandemia. As respostas mais citadas foram criação de tribunal especial (31,1%), comissão da verdade (29,7%) e indenizações a vítimas e órfãos (27%) —mas todas recuaram em relação a 2023. A maior queda foi na proposta de comissão da verdade, com 14,9 pontos percentuais a menos.

A pesquisa testou ainda a receptividade à vacina contra a dengue, desenvolvida pelo Instituto Butantan e disponível no SUS (Sistema Único de Saúde) desde o início de 2026. Cerca de 70% manifestaram atitude favorável ao imunizante: 56,2% pretendem se vacinar assim que possível e 13,7% consideram a vacina importante, embora sem prioridade imediata. Cerca de 25% mostraram indiferença, hesitação ou desinteresse, e 4,8% se declararam abertamente antivacina.

Os pesquisadores apontam ainda que idosos acima de 60 anos foram os que mais declararam intenção de se vacinar contra a dengue (62%), embora o imunizante do Butantan seja indicado para pessoas de 12 a 59 anos.

Para retomar os patamares de cobertura vacinal registrados pelo PNI antes de 2016, é necessário reconstruir a comunicação pública em várias frentes —TV, rádio, redes digitais, escolas e unidades básicas de saúde—, com foco nos jovens hesitantes, diz Arantes. “A vacina da dengue do Butantan pode ser uma boa oportunidade para uma nova grande campanha nacional, mas ainda está tímida”, afirma.


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