O “cavalo de Tróia” da Saúde Única (One Health) e os perigos para o SUS
A partir da exposição de Lia Giraldo em evento do Cesteh/Ensp/Fiocruz, o debate lança luz sobre os interesses, antagonismos e vulnerações que atravessam a institucionalização da Saúde Única no Brasil.
O tema da Saúde Única, ou One Health, – chamada no Brasil de Uma Só Saúde – foi pauta da última edição do Encontros Integrativos do Cesteh, realizado no dia 2 de abril, no Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/Ensp/Fiocruz). Com o título Saúde Única: desafios e contradições, o evento foi coordenada pelo pesquisador do Cesteh, Hermano Castro, e contou com exposições do coordenador adjunto da pós-graduação stricto sensu do INI (Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas), Rodrigo Caldas, da pesquisadora da Fiocruz, epidemiologista e médica sanitarista e do trabalho Lia Giraldo, além do professor da Universidade de Brasília (UnB), Heleno Corrêa Filho. Como debatedor, participou o pesquisador e professor da EPSJV/Fiocruz, Alexandre Pessoa.
Na apresentação de Lia Giraldo, o debate foi organizado em duas partes. A primeira questionou o modelo conceitual que sustenta a One Health. A crítica é que se resume na tríade agente-hospedeiro-ambiente, ligada à tradição biomédica, do começo do século XX, que não alcança a complexidade da determinação socioambiental da saúde – modelo que foi suplantado no Brasil pela Saúde Coletiva. Esta, construída como parte de uma compreensão ampla da determinação da saúde, que relaciona adoecimento e morte às condições de vida, trabalho, ambiente, processos de produção e consumo, desigualdades sociais, de raça, de gênero entre outras iniquidades. Processos que incidem sobre o biológico, não separando natureza e sociedade.
Como sintetizou Lia, “no contexto brasileiro, organismos internacionais articulados com organismos empresariais vêm agindo historicamente em desfavor da saúde, do ambiente e das políticas públicas de seguridade e proteção dos mais pobres e vulneráveis. Buscam sempre hegemonizar seus interesses e interferir nas políticas brasileiras. Vimos isto acontecer no desenvolvimento científico, na agricultura, e nos serviços universais, como da educação e da saúde”.
Para Lia, a Saúde Única vem sendo promovida como inovação – adejetivo que a pesquisadora desconstrói, mostrando a verdadeira história internacional da One Health e as tentativas de sua introdução no Brasil, há pelo menos 18 anos. Esta demonstração documental está na segunda parte de sua apresentação.
Lia chama a atenção para os atores e interesses envolvidos na difusão dessa abordagem e de sua agenda. A pesquisadora destaca os discursos totalizantes de “um só mundo, uma só saúde” e as articulações entre organismos internacionais multilaterais como o Banco Mundial e das Nações Unidas: da Saúde, Alimentação e Agricultura, Desenvolvimento e Ambiente; Organização Internacional de Sanidade Animal, instituições filantrópico-capitalistas, como a Fundação Rockfeller; agências de estado estadunidense, como a USAID; corporações empresariais, como a Cargill, Nestlé, Pfizer; organizações conservacionistas entre outras, todas buscando parcerias público-privadas, especialmente no campo da vigilância da saúde e da regulação.
Nessa explanação Lia descreve os interesses embutidos na One health como, a metáfora do “cavalo de Tróia”. É uma importante chave de leitura, que faz questão de assinar. Ou seja, uma proposta que chega revestida de novidade integradora, mas que, segundo a crítica apresentada, tenta promover um deslocamento conceitual e político no que dá sustentação à construção dos capítulos da seguridade social e do ambiente na sua Constituição Federal brasileira de 1988.
Ao desconsiderar o acúmulo histórico da Saúde Coletiva, e o conceito e o modo de operar da One Health abre atalhos de interesses que bloqueiam o enfrentamento dos processos e problemas estruturais que são as verdadeiras causas das crises sanitárias, ecológicas e climáticas. Como pergunta Lia, “os que são responsáveis por essas nocividades e danos, que devem ser regulados, podem assumir protagonismo na regulação?” E assevera: “é o que vimos acontecer com a aprovação do PL do veneno em 2023 e do PL da devastação em 2026.”

Ao retomar a tradição crítica da Medicina Social e da Saúde Coletiva latino-americana, Lia também denuncia a tentativa por parte dos promotores da One Health de se apropriar das palavras utilizadas no marco conceitual e prático da Saúde Coletiva, chamando isso de mais um “embuste”. A pesquisadora adverte que “não adianta enfeitar uma modelagem reduzida”, que continua centrada na doença, na clínica, na causa imediata e não nos processos de sua determinação, nas desigualdades observadas na população que tem diferenças nos contextos de vida e de trabalho. “Não há uma só saúde, se o modo de adoecer e morrer é distinto segundo as condições sociais, ambientais, econômicas, de raça, entre outras.”
Atrás da linguagem totalizante da One Health, persiste a matriz reducionista que subordina a complexidade do processo saúde-doença a uma leitura biomédica de causa–efeito.
A exposição também questiona o modo como a Saúde Única vem sendo institucionalizada no país. Entre os pontos levantados estão a ausência de amplo debate público, a exclusão de instâncias históricas de participação social na construção da politica nacional de saúde e a aproximação com agentes privatizadores e negacionistas. “O modo como vem sendo introduzido Uma Só Saúde, em vez de fortalecer o conceito ampliado de saúde que sustenta o SUS, faz retornar a enfoques vencidos”. Nesse sentido, o debate promovido no Cesteh reforça a necessidade de examinar criticamente não apenas os enunciados e fundamentos da Saúde Única, mas também suas alianças e efeitos sobre as políticas públicas de saúde no Brasil.
O registro gravado do encontro está disponível no canal da Ensp Fiocruz, no Youtube. O PDF com a pesquisa completa está abaixo.
Reportagem: Fernanda Regina da Cunha / Cebes
Source link
Você pode se precisar disso:
Produtos Recomendados

Ômega 3 1000mg Rico em EPA DHA com Selo IFOS e Vitamina E – 60 cápsulas Vhita-radardasaude
Ver na Amazon* Links de afiliado. Podemos receber uma comissão por compras qualificadas.
Conteúdo Indicado



