Uma pesquisa feita com integrantes do Programa de Computação Científica da Fiocruz (PROCC), vinculado à Vice-presidência de Educação, Informação e Comunicação (VPEIC), conquistou o primeiro lugar na 18ª Mostra Nacional de Experiências Bem-Sucedidas em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (ExpoEpi), realizada entre 14 e 17 de abril de 2026 em Brasília. A ExpoEpi é um evento do Ministério da Saúde (MS) voltado à divulgação de práticas inovadoras em vigilância epidemiológica no país. O prêmio, concedido pela Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do MS, foi na categoria Mais Ciência para o SUS, na área de preparação, vigilância e resposta às emergências em saúde pública.
O trabalho foi publicado na revista científica Infectious Disease Modelling em dezembro de 2025 e propõe um modelo estatístico bayesiano (forma de previsão que combina informações já conhecidas sobre um fenômeno no passado com dados novos) capaz de prever o número de casos de dengue com até 52 semanas de antecedência para macrorregiões de saúde do Brasil, sem necessidade de dados climáticos ou populacionais, apenas com base no histórico de notificações da doença.
Previsão de dengue sem dados climáticos: como funciona
Na prática, a ferramenta permite identificar quando o número de casos de dengue em uma região está saindo do padrão histórico e em qual proporção, o que pode orientar respostas mais ágeis e precisas do SUS, antes que uma situação se agrave.
A pesquisadora da Escola de Saúde Publica (Ensp) da Fiocruz e primeira autora do trabalho, Laís Picinini Freitas, explica que, em comparação com ferramentas já existentes, o modelo evita alertas desnecessários, ou seja, só sinaliza uma situação como atípica quando há base estatística sólida para isso. “As faixas [no modelo] representam quatro níveis graduais de casos esperados: ‘abaixo da mediana, típico’, ‘moderadamente alto, bastante típico’, ‘bastante alto, atípico’ e ‘excepcionalmente alto, muito atípico’. Cada faixa considera a probabilidade daquele número de casos ter sido observado no passado, o que traz mais informação para a tomada de decisão pelos gestores de saúde”, explica Freitas.
Dengue no Brasil: como o modelo foi validado
O modelo foi testado para as temporadas 2022-2023 e 2023-2024. Na primeira, classificou a situação nacional como “bastante alta, atípica”, o que de fato ocorreu, com mais de 1,4 milhão de casos registrados. Na temporada 2023-2024, quando o Brasil viveu sua pior epidemia de dengue da história de acordo com dados do Ministério da Saúde, com mais de 6 milhões de casos e cerca de 6 mil mortes, o modelo sinalizou corretamente a situação como “excepcionalmente alta, muito atípica”, ainda que as estimativas não tenham alcançado a magnitude sem precedentes daquele ano.
Da dengue à gripe: uma metodologia para diferentes doenças
“Usamos as previsões para o ano seguinte baseadas no histórico de dados e em um modelo estatístico para construir bandas epidêmicas e ajudar no monitoramento de dengue. O que nos permite, por exemplo, dizer em tempo real se o que estamos observando é uma temporada típica ou atípica. E é importante reforçar que a metodologia proposta não se aplica apenas à dengue, ela pode ser usada em qualquer agravo com notificação regular. Estamos nesse momento avaliando a dinâmica de casos de SRAG por Influenza e pelo vírus sincicial respiratório (VSR) usando a mesma metodologia”, explica o pesquisador da Fiocruz e autor sênior do artigo, Leonardo Bastos.
A pesquisa foi desenvolvida em resposta a uma demanda direta do MS por ferramentas que apoiem a preparação e a resposta à dengue no Brasil. Bastos explica que o modelo pode ser replicado também em outros países, desde que haja dados de vigilância sistemática disponíveis por pelo menos cinco anos.
Freitas acrescenta que o modelo está sendo adaptado para funcionar também no nível municipal. “Os resultados preliminares mostram que funciona muito bem para capitais e municípios com volume considerável de dados”, afirma.
O estudo tem autoria de Laís Picinini Freitas, Leonardo Soares Bastos, Danielle Andreza da Cruz Ferreira, Raquel Martins Lana, Daniel Cardoso Portela Câmara, Tatiana P. Portella, Marilia Sá Carvalho, Ayrton Sena Gouveia, Iasmim Ferreira de Almeida, Eduardo Correa Araujo, Luã Bida Vacaro, Fabiana Ganem, Oswaldo Gonçalves Cruz, Flávio Codeço Coelho, Claudia Torres Codeço e Luiz Max Carvalho, e foi executado pela Fiocruz com financiamento do próprio ministério, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
Para Laís, o reconhecimento tem um significado que vai além da conquista técnica. “São anos de estudo e trabalho intenso para produzir ciência de qualidade, em um contexto de desvalorização crescente da ciência e do pesquisador. Nesse contexto, foi super importante a criação da área de premiação ‘Mais Ciência para o SUS’ nessa 18ª ExpoEpi. Essa iniciativa traduz exatamente o que precisamos: fortalecer a produção científica voltada ao sistema público de saúde e, ao mesmo tempo, motivar e reconhecer os esforços de quem está trabalhando por isso”, diz.
Pesquisadores do PROCC participaram do estudo
Entre os autores do estudo, os pesquisadores Claudia Codeço, Leonardo Bastos, Marilia Sá Carvalho e Oswaldo G. Cruz fazem parte do quadro do PROCC. “Esse prêmio é uma implicação de uma liberdade científica que é dada aos pesquisadores do PROCC, que nos permite trabalhar com aquilo que estamos interessados”, finaliza Leonardo.
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