Enquanto o mundo fala em crises climáticas e metas de preservação, um grupo historicamente invisibilizado resolveu tomar a liderança. No último Dia Nacional da Mata Atlântica (27 de maio), representantes de povos tradicionais de todo o país — com participação do Nordeste — lançaram em São Paulo uma aliança inédita para proteger o bioma que já foi berço da história brasileira e hoje vive sitiado.
A princípio, o nome é ambicioso e preciso: Aliança dos Povos e Comunidades Tradicionais Guardiões da Mata Atlântica. O lançamento ocorreu na Faculdade de Direito da USP, e o recado foi direto: não há preservação sem direitos territoriais, e não há futuro sem a floresta em pé.
Quem compõe essa aliança?
Ao mesmo tempo, a coalizão reúne uma diversidade impressionante de grupos, muitos deles presentes em diversos estados nordestinos:
- Povos indígenas (como os Guarani, Kerexu e outros)
- Quilombolas
- Caiçaras e caboclos
- Marisqueiras e pescadores artesanais
- Povos de terreiro
A coordenadora da Comissão Guarani Yvyrupa, Ivanildes Kerexu, da Aldeia Rio Bonito (Ubatuba/SP), resume o espírito da iniciativa:
“O que manteve até hoje a Mata Atlântica sempre foram as comunidades tradicionais que nela vivem e que estão ali resistindo.”
Para ela, a aliança é um projeto de união que busca políticas públicas e, acima de tudo, o reconhecimento de que preservação ambiental e direitos humanos caminham juntos.
Por que agora? A mata pede socorro
Os números assustam. Originalmente, a Mata Atlântica cobria 15% do território brasileiro em 17 estados. Hoje, restam apenas cerca de 12,4% de sua vegetação original. Apesar disso, o bioma ainda abriga mais de 20 mil espécies de plantas e 2 mil de vertebrados — muitas exclusivas.
Mais impressionante: é da Mata Atlântica que vem a água para mais de 145 milhões de brasileiros, ou seja, 70% da população do país. Sem ela, cidades inteiras colapsam.


Ameaças reais e um novo perigo: terras raras
Os guardiões da mata não estão alarmados à toa. Entre as ameaças listadas estão:
- Grandes empreendimentos e especulação imobiliária
- Turismo exploratório (com destaque para novos resorts)
- Uso de agrotóxicos
- Exploração de petróleo e combustíveis fósseis
Mas há um alerta novo, levantado pela deputada federal e ex-ministra dos Povos Indígenas Sonia Guajajara (PSOL-SP) : a corrida internacional por terras raras e minerais críticos.
“Se as terras raras forem exploradas da mesma forma, sem considerar direitos, sem considerar salvaguardas, sem considerar consulta livre, prévia e informada, as consequências não serão diferentes do que é a exploração do petróleo para nossos povos”, alertou Guajajara durante o evento.
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A voz do Nordeste na aliança
O coordenador executivo da aliança é José Wellington Fontes Nascimento, o Wellington Quilombola, coordenador do Movimento Quilombola de Sergipe e pesquisador. Dessa forma, ele explica que o problema da Mata Atlântica atravessa todos os estados e atinge diretamente o modo de vida das comunidades.
Em sua comunidade, Quilombo Porto d’Areia (SE) , a destruição do habitat já trouxe animais silvestres para as ruas:
“Já se tornou comum encontrarmos nas ruas animais como cobra, paca, tatu e outros que estão tendo seu habitat destruído. Por conta disso, eles procuram abrigo nas residências.”
Wellington reforça que a aliança quer sentar à mesa com governos federal, estaduais e municipais para propor mudanças reais na política ambiental e territorial.
“A política que nós precisamos é a política da boa vivência. Não será com tanta exploração e destruição que a gente vai conseguir vencer.”
Detalhes da Aliança
| Item | Informação |
|---|---|
| Nome da aliança | Aliança dos Povos e Comunidades Tradicionais Guardiões da Mata Atlântica |
| Data de lançamento | 27 de maio de 2026 (Dia Nacional da Mata Atlântica) |
| Local | Faculdade de Direito da USP, São Paulo |
| Quem participa | Indígenas, quilombolas, caiçaras, caboclos, marisqueiras, pescadores artesanais, povos de terreiro |
| Principal objetivo | Defender a Mata Atlântica e garantir direitos territoriais |
| Principais ameaças ao bioma | Grandes empreendimentos, especulação imobiliária, turismo exploratório, agrotóxicos, petróleo, terras raras |
| Área original da Mata Atlântica | 15% do território brasileiro (17 estados) |
| Remanescente atual | Aproximadamente 12,4% |
| População dependente da mata | Mais de 145 milhões de brasileiros (70% da população) |
| Coordenador executivo | Wellington Quilombola (Movimento Quilombola de Sergipe) |
| Apoio político destacado | Deputada Sonia Guajajara (PSOL-SP), ex-ministra dos Povos Indígenas |
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E agora? Qual o próximo passo?
Em suma, a aliança não é apenas simbólica. Ela nasce como uma rede de proteção ativa, com capacidade de articular denúncias, propor políticas públicas e, principalmente, incomodar estruturas poderosas — econômicas e políticas — que enxergam a floresta como obstáculo, e não como berço da vida.
Como disse Wellington Quilombola:
“A gente quer chamar atenção e queremos sentar à mesa para conversar para tentar mudar essa situação.”
Assim, em um país onde mais da metade da Mata Atlântica já se perdeu, e onde comunidades tradicionais seguram as pontas da floresta com as mãos, essa aliança é mais do que bem-vinda. É urgente.
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