Um dos maiores gargalos do Sistema Único de Saúde (SUS) é o acesso a médicos especialistas. Não é raro encontrar pacientes que aguardam meses — ou até anos — por consultas com oftalmologistas, cardiologistas, neurologistas e outros profissionais. Para tentar enfrentar esse problema, o governo federal lançou, em maio do ano passado, o programa Agora Tem Especialistas, uma das principais apostas do Ministério da Saúde para reduzir as filas da chamada atenção especializada.
O programa ampliou a participação da rede privada. Estados e municípios agora podem fazer contratações complementares para ampliar os atendimentos. Também houve aumento dos pagamentos por pacotes de serviços. Outra frente envolve hospitais privados e filantrópicos endividados com a União, que podem quitar débitos oferecendo cirurgias, exames e consultas à população.
A iniciativa também apostou em mutirões, carretas de atendimento, expansão da Telessaúde e mudanças na forma de encaminhamento dos pacientes, em uma tentativa de evitar que eles fiquem “pulando” entre consultas e exames sem conseguir resolver o problema.
Os primeiros resultados foram considerados positivos por especialistas e pacientes ouvidos pela reportagem, além dos próprios dados divulgados pelo Ministério da Saúde. Houve aumento no número de consultas especializadas, exames de imagem e cirurgias eletivas realizadas em diferentes estados. Ainda assim, especialistas alertam que o problema está longe de ser resolvido na fila — até porque o Brasil sequer possui uma fila nacional pública e transparente que permita medir exatamente o tamanho da demanda reprimida.
“Do lado do profissional de saúde, nós percebemos que o programa melhorou muito as situações. Agora, é claro que nós temos alguns problemas, porque tudo funciona por uma questão de planejamento. Então, a gente planeja em cima de números que nós temos e nem sempre isso se concretiza”, diz Flávia Pereira Carnauba, enfermeira doutora formada pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do Centro Universitário FMU.
A parceria com a rede privada
Hoje, mais de 70% da atenção especializada do SUS — incluindo consultas, exames e cirurgias — é realizada por prestadores privados contratados pelo poder público.
Segundo Luna Rezende de Machado de Sousa Canadá, doutora em políticas públicas, pós-doutora em saúde coletiva, professora e coordenadora do bacharelado em saúde coletiva da Universidade Federal do Paraná (UFPR), essa dependência não surgiu agora. Ela é anterior ao próprio SUS.
Na avaliação dela, o programa Agora Tem Especialistas acabou trabalhando dentro dessa realidade. Em vez de tentar substituir rapidamente a rede privada, o governo optou por ampliar contratos e mudar as regras de remuneração para aumentar a oferta de consultas, exames e cirurgias.
Uma das mudanças mais importantes foi o reajuste no valor pago por determinados procedimentos. Segundo a professora, em alguns tipos de cirurgia os pagamentos chegaram a subir até 300% em relação à tabela tradicional do SUS, conhecida por ter valores defasados há anos.
Muitos hospitais privados, relata ela, simplesmente não tinham interesse em realizar determinados procedimentos pelos valores antigos.
“Não é porque agora o SUS está pagando demais. Em muitos casos, o valor ainda continua abaixo do mercado. Mas antes era tão baixo que não havia prestador interessado”, explica.
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Dívidas em troca de atendimento
O programa também criou mecanismos para que hospitais privados e filantrópicos endividados com a União possam quitar parte dos débitos prestando serviços ao SUS, como cirurgias eletivas, exames especializados e consultas.
A medida foi criada como forma de ampliar rapidamente a oferta de atendimentos sem depender exclusivamente da expansão da rede pública.
No ano passado, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que 3.537 instituições estavam nessa situação e respondiam por R$ 34,1 bilhões em dívidas inscritas.
A expectativa inicial do governo era realizar atendimentos equivalentes a R$ 750 milhões em 2025 por meio desse modelo. No entanto, segundo dados do Ministério da Saúde, os hospitais regularizaram cerca de R$ 453 milhões em dívidas com a União até o início deste ano.
O cuidado integrado
Uma das principais mudanças trazidas pelo programa Agora Tem Especialistas foi a criação da chamada Oferta de Cuidado Integrado (OCI), modelo que tenta acabar com um problema histórico do SUS: a fragmentação do atendimento especializado.
Antes, era comum que pacientes fossem encaminhados separadamente para consulta com especialista e para diferentes exames — muitas vezes em locais distintos e com filas próprias. Na prática, isso fazia com que a pessoa esperasse meses por um exame, conseguisse consulta sem os resultados completos, voltasse para a fila e repetisse o processo diversas vezes.
Com a OCI, a lógica muda. Em vez de o paciente entrar em filas separadas para cada etapa, ele passa a ser encaminhado para um “pacote” de cuidado de determinada especialidade, como cardiologia ou oftalmologia. Quando é chamado, realiza consulta, exames necessários e retorno no mesmo serviço.
Segundo especialistas, isso aumenta a chance de resolução mais rápida dos casos e reduz o vai e vem dentro da rede pública.
“Esse usuário costumava fazer o seguinte: a fila para um exame demorava seis meses, para outro demorava dois, cada um em um lugar diferente. Às vezes ele chegava ao especialista sem os exames completos e precisava voltar para a fila. O paciente ficava ‘pipocando’ na rede sem resolutividade”, explica Canadá.
Os números
Os dados divulgados pelo Ministério da Saúde indicam aumento da produção de atendimentos especializados desde o lançamento do programa.
Segundo a pasta, o SUS realizou 14,9 milhões de cirurgias eletivas em 2025, número 42% superior ao registrado em 2022. Já as consultas com especialistas chegaram a 1,6 bilhão, enquanto os exames somaram 1,3 bilhão.
O programa também realizou mutirões nacionais de cirurgias e exames, incluindo uma ação voltada à saúde da mulher que contabilizou cerca de 230 mil atendimentos em um único fim de semana, mobilizando mais de 200 hospitais públicos e filantrópicos.
Especialistas, no entanto, ponderam que os dados mostram aumento de produção, mas não necessariamente o tamanho real da fila reprimida no país.
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Ela conseguiu um especialista de um dia para o outro
Era junho de 2025. Durante uma consulta de rotina com uma médica do SUS que a acompanha há mais de 14 anos por causa de hepatite, a assistente administrativa Soraia Chehade, 46 anos, comentou que estava com dificuldade para enxergar de perto e pediu encaminhamento para um oftalmologista. A expectativa era esperar cerca de seis meses pela consulta.
Mas o retorno veio no mesmo dia. “Eu saí de lá numa quinta-feira, 10 horas da manhã, com a guia do encaminhamento. Quando foi no finalzinho da tarde, às 17 horas, a Santa Casa me ligou. Eu tinha consulta na sexta-feira, às 7 horas da manhã”, conta.
Soraya foi atendida por um oftalmologista da Santa Casa de Curitiba, realizou exames e recebeu acompanhamento para glaucoma. Segundo ela, o atendimento foi rápido e bem estruturado. “Tenho bastante a agradecer pelo SUS.”
Apesar do relato positivo, especialistas e pacientes ressaltam que essa ainda não é a realidade da maior parte da população. Em diferentes regiões do país, pessoas continuam aguardando meses — e às vezes até anos — por consultas, exames e cirurgias especializadas no SUS.
Carnauba afirma que, apesar dos avanços, o tempo de espera ainda está longe do ideal em áreas críticas. “Ainda nós temos um, dois, três meses para um paciente na fila para fazer uma radioterapia. Para este paciente, é muito tempo”, diz.
O que falta para o programa melhorar?
Segundo Canadá, o programa trouxe avanços importantes, mas ainda enfrenta limitações estruturais que impedem uma redução mais profunda das filas do SUS.
Na avaliação dela, o principal problema continua sendo o subfinanciamento da saúde pública: a atenção especializada é muito cara e o SUS opera com um orçamento insuficiente para sustentar mudanças mais robustas no longo prazo. “Não existe milagre”, resume.
Ela também defende que o programa mantenha e amplie a entrada de recursos federais nos próximos anos. De acordo com a pesquisadora, uma das preocupações é que iniciativas desse tipo comecem com forte investimento inicial e depois percam força ao longo do tempo.
Para Carnauba, um dos principais entraves do primeiro ano foi a gestão pública. Ela afirma que existe uma cadeia muito longa entre governo federal, estados e municípios e que muitas vezes decisões e recursos não chegam da forma esperada à ponta do sistema.
“Quando a gente está falando da gestão pública, a gente está falando de algo que precisa de um controle rigoroso. Muitas vezes, nessa cadeia de gestão, as coisas não chegam da maneira como deveriam”, afirma.
Ela também avalia que o SUS ainda enfrenta dificuldades para priorizar casos mais urgentes e organizar melhor o tempo de espera dos pacientes.
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