Um ano depois: o que mudou com o Agora Tem Especialistas — e o que ainda trava as filas do SUS-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

02/06/2026

Um dos maiores gargalos do Sistema Único de Saúde (SUS) é o acesso a médicos especialistas. Não é raro encontrar pacientes que aguardam meses — ou até anos — por consultas com oftalmologistas, cardiologistas, neurologistas e outros profissionais. Para tentar enfrentar esse problema, o governo federal lançou, em maio do ano passado, o programa Agora Tem Especialistas, uma das principais apostas do Ministério da Saúde para reduzir as filas da chamada atenção especializada.

O programa ampliou a participação da rede privada. Estados e municípios agora podem fazer contratações complementares para ampliar os atendimentos. Também houve aumento dos pagamentos por pacotes de serviços. Outra frente envolve hospitais privados e filantrópicos endividados com a União, que podem quitar débitos oferecendo cirurgias, exames e consultas à população.

A iniciativa também apostou em mutirões, carretas de atendimento, expansão da Telessaúde e mudanças na forma de encaminhamento dos pacientes, em uma tentativa de evitar que eles fiquem “pulando” entre consultas e exames sem conseguir resolver o problema.

Os primeiros resultados foram considerados positivos por especialistas e pacientes ouvidos pela reportagem, além dos próprios dados divulgados pelo Ministério da Saúde. Houve aumento no número de consultas especializadas, exames de imagem e cirurgias eletivas realizadas em diferentes estados. Ainda assim, especialistas alertam que o problema está longe de ser resolvido na fila — até porque o Brasil sequer possui uma fila nacional pública e transparente que permita medir exatamente o tamanho da demanda reprimida.

“Do lado do profissional de saúde, nós percebemos que o programa melhorou muito as situações. Agora, é claro que nós temos alguns problemas, porque tudo funciona por uma questão de planejamento. Então, a gente planeja em cima de números que nós temos e nem sempre isso se concretiza”, diz Flávia Pereira Carnauba, enfermeira doutora formada pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do Centro Universitário FMU.

 

A parceria com a rede privada

Hoje, mais de 70% da atenção especializada do SUS — incluindo consultas, exames e cirurgias — é realizada por prestadores privados contratados pelo poder público.

Segundo Luna Rezende de Machado de Sousa Canadá, doutora em políticas públicas, pós-doutora em saúde coletiva, professora e coordenadora do bacharelado em saúde coletiva da Universidade Federal do Paraná (UFPR), essa dependência não surgiu agora. Ela é anterior ao próprio SUS.

Na avaliação dela, o programa Agora Tem Especialistas acabou trabalhando dentro dessa realidade. Em vez de tentar substituir rapidamente a rede privada, o governo optou por ampliar contratos e mudar as regras de remuneração para aumentar a oferta de consultas, exames e cirurgias.

Uma das mudanças mais importantes foi o reajuste no valor pago por determinados procedimentos. Segundo a professora, em alguns tipos de cirurgia os pagamentos chegaram a subir até 300% em relação à tabela tradicional do SUS, conhecida por ter valores defasados há anos.

Muitos hospitais privados, relata ela, simplesmente não tinham interesse em realizar determinados procedimentos pelos valores antigos.

“Não é porque agora o SUS está pagando demais. Em muitos casos, o valor ainda continua abaixo do mercado. Mas antes era tão baixo que não havia prestador interessado”, explica.

Veja também: O que é o PROADI-SUS e como ele melhora a vida dos pacientes da rede pública

 

Dívidas em troca de atendimento

O programa também criou mecanismos para que hospitais privados e filantrópicos endividados com a União possam quitar parte dos débitos prestando serviços ao SUS, como cirurgias eletivas, exames especializados e consultas.

A medida foi criada como forma de ampliar rapidamente a oferta de atendimentos sem depender exclusivamente da expansão da rede pública.

No ano passado, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que 3.537 instituições estavam nessa situação e respondiam por R$ 34,1 bilhões em dívidas inscritas.

A expectativa inicial do governo era realizar atendimentos equivalentes a R$ 750 milhões em 2025 por meio desse modelo. No entanto, segundo dados do Ministério da Saúde, os hospitais regularizaram cerca de R$ 453 milhões em dívidas com a União até o início deste ano. 

 

O cuidado integrado

Uma das principais mudanças trazidas pelo programa Agora Tem Especialistas foi a criação da chamada Oferta de Cuidado Integrado (OCI), modelo que tenta acabar com um problema histórico do SUS: a fragmentação do atendimento especializado.

Antes, era comum que pacientes fossem encaminhados separadamente para consulta com especialista e para diferentes exames — muitas vezes em locais distintos e com filas próprias. Na prática, isso fazia com que a pessoa esperasse meses por um exame, conseguisse consulta sem os resultados completos, voltasse para a fila e repetisse o processo diversas vezes.

Com a OCI, a lógica muda. Em vez de o paciente entrar em filas separadas para cada etapa, ele passa a ser encaminhado para um “pacote” de cuidado de determinada especialidade, como cardiologia ou oftalmologia. Quando é chamado, realiza consulta, exames necessários e retorno no mesmo serviço.

Segundo especialistas, isso aumenta a chance de resolução mais rápida dos casos e reduz o vai e vem dentro da rede pública.

“Esse usuário costumava fazer o seguinte: a fila para um exame demorava seis meses, para outro demorava dois, cada um em um lugar diferente. Às vezes ele chegava ao especialista sem os exames completos e precisava voltar para a fila. O paciente ficava ‘pipocando’ na rede sem resolutividade”, explica Canadá.

 

Os números

Os dados divulgados pelo Ministério da Saúde indicam aumento da produção de atendimentos especializados desde o lançamento do programa.

Segundo a pasta, o SUS realizou 14,9 milhões de cirurgias eletivas em 2025, número 42% superior ao registrado em 2022. Já as consultas com especialistas chegaram a 1,6 bilhão, enquanto os exames somaram 1,3 bilhão.

O programa também realizou mutirões nacionais de cirurgias e exames, incluindo uma ação voltada à saúde da mulher que contabilizou cerca de 230 mil atendimentos em um único fim de semana, mobilizando mais de 200 hospitais públicos e filantrópicos.

Especialistas, no entanto, ponderam que os dados mostram aumento de produção, mas não necessariamente o tamanho real da fila reprimida no país.

Veja também: Doenças crônicas avançam e atendimento pelo SUS cresce em São Paulo, aponta ISA-Capital

 

Ela conseguiu um especialista de um dia para o outro

Era junho de 2025. Durante uma consulta de rotina com uma médica do SUS que a acompanha há mais de 14 anos por causa de hepatite, a assistente administrativa Soraia Chehade, 46 anos, comentou que estava com dificuldade para enxergar de perto e pediu encaminhamento para um oftalmologista. A expectativa era esperar cerca de seis meses pela consulta.

Mas o retorno veio no mesmo dia. “Eu saí de lá numa quinta-feira, 10 horas da manhã, com a guia do encaminhamento. Quando foi no finalzinho da tarde, às 17 horas, a Santa Casa me ligou. Eu tinha consulta na sexta-feira, às 7 horas da manhã”, conta. 

Soraya foi atendida por um oftalmologista da Santa Casa de Curitiba, realizou exames e recebeu acompanhamento para glaucoma. Segundo ela, o atendimento foi rápido e bem estruturado. “Tenho bastante a agradecer pelo SUS.” 

Apesar do relato positivo, especialistas e pacientes ressaltam que essa ainda não é a realidade da maior parte da população. Em diferentes regiões do país, pessoas continuam aguardando meses — e às vezes até anos — por consultas, exames e cirurgias especializadas no SUS. 

Carnauba afirma que, apesar dos avanços, o tempo de espera ainda está longe do ideal em áreas críticas. “Ainda nós temos um, dois, três meses para um paciente na fila para fazer uma radioterapia. Para este paciente, é muito tempo”, diz.

 

O que falta para o programa melhorar?

Segundo Canadá, o programa trouxe avanços importantes, mas ainda enfrenta limitações estruturais que impedem uma redução mais profunda das filas do SUS.

Na avaliação dela, o principal problema continua sendo o subfinanciamento da saúde pública: a atenção especializada é muito cara e o SUS opera com um orçamento insuficiente para sustentar mudanças mais robustas no longo prazo. “Não existe milagre”, resume.

Ela também defende que o programa mantenha e amplie a entrada de recursos federais nos próximos anos. De acordo com a pesquisadora, uma das preocupações é que iniciativas desse tipo comecem com forte investimento inicial e depois percam força ao longo do tempo.

Para Carnauba, um dos principais entraves do primeiro ano foi a gestão pública. Ela afirma que existe uma cadeia muito longa entre governo federal, estados e municípios e que muitas vezes decisões e recursos não chegam da forma esperada à ponta do sistema.

“Quando a gente está falando da gestão pública, a gente está falando de algo que precisa de um controle rigoroso. Muitas vezes, nessa cadeia de gestão, as coisas não chegam da maneira como deveriam”, afirma.

Ela também avalia que o SUS ainda enfrenta dificuldades para priorizar casos mais urgentes e organizar melhor o tempo de espera dos pacientes.

Veja também: Por que o brasileiro desdenha do SUS?




Source link

Você pode se precisar disso:

Produtos Recomendados

Cabo USB Alimentação Energia Dc 3,5mm Nebulizador-radardasaude

Cabo USB Alimentação Energia Dc 3,5mm Nebulizador-radardasaude

Ver na Amazon
Livro de Receitas – Doces para empreender (Portuguese Edition)

Livro de Receitas – Doces para empreender (Portuguese Edition)

Ver na Amazon
Ômega 3 1000mg Rico em EPA DHA com Selo IFOS e Vitamina E – 60 cápsulas Vhita-radardasaude

Ômega 3 1000mg Rico em EPA DHA com Selo IFOS e Vitamina E – 60 cápsulas Vhita-radardasaude

Ver na Amazon
Puravida Suplemento alimentar Ômega 3 DHA 60 cápsulas

Puravida Suplemento alimentar Ômega 3 DHA 60 cápsulas

Ver na Amazon
Espaçador Inal-Air Infantil

Espaçador Inal-Air Infantil

Ver na Amazon

* Links de afiliado. Podemos receber uma comissão por compras qualificadas.

Conteúdo Indicado

Como enlouquecer qualquer homem na cama e fora dela

Melhore sua autoestima, aprenda técnicas de conquista e sedução que faz com que um homem fique obcecado por você e deixe qualquer homem louvo de desejo por você...

Saiba mais

Esteatose Hepática pode ser revertida com esse simples tratamento...

A gordura no fígado não tratada pode evoluir de forma gradual. Inicialmente, ocorre a esteatose hepática (fígado gorduroso). O tratamento precoce pode evitar essa progressão...

Saiba mais

Essa cena nunca mais se repetiu na minha vida depois disso...

Especialistas descobrem fórmula que pode deixar qualquer homem mais ativo na hora H...

Saiba mais

Pesquisas apontam: Falar inglês triplica a renda

Estudos comprovam que falar inglês pode triplicar seus rendimentos em empresas nacionais e internacionais. Quer aprender rápido com uma gringa?

Saiba mais

Não entre nesse anúncio se você não quer parar de fumar...

Revelado segredo para quem quer parar de fumar começando ainda hoje...Escolha o MELHOR TRATAMENTO PARA O SEU CORPO E ORGANISMO!

Saiba mais

Como parar de comer em excesso, ter mais saúde e viver mais...

Sem dietas malucas ou exercícios físicos, comendo o suficiente para ter saúde e viver mais com qualidade de vida...

Saiba mais

Livre-se das dores em um estalar de dedos com essa fórmula...

Depois que você conhecer essa fórmula esqueça as dores articulares... Médico ensina método validado para tratamento eficaz contra dores articulares e no corpo

Saiba mais
Please follow and like us:

Deixe um comentário