Por seis anos, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) acompanharam 7.400 Agentes de Combate às Endemias em todo o Brasil. O resultado é perturbador: centenas desses profissionais desenvolveram doenças graves diretamente ligadas ao contato diário com as substâncias químicas utilizadas no Combate às Endemias.
O estudo foi apresentado em audiência pública na Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz), em Manguinhos, Rio de Janeiro.
O que o estudo encontrou no sangue e no corpo desses trabalhadores
A pesquisa coordenada pela doutora Ariane Leites Larentis, pesquisadora do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH/ENSP/Fiocruz), registrou alterações graves em trabalhadores que aplicam fumacê, raticida, calda e demais substâncias no Combate às Endemias.
Durante a audiência, a pesquisadora foi direta: “São venenos. A gente chama de venenos porque eles são agrotóxicos.” Entre as alterações identificadas nos profissionais avaliados estão:
💠 Alterações hematológicas — comprometimento das células do sangue por exposição química prolongada;
💠 Alterações neurológicas — danos ao sistema nervoso associados à inalação e ao contato com inseticidas organofosforados;
💠 Lesões no DNA — dano genético documentado em trabalhadores com histórico de exposição continuada;
💠 Alterações imunológicas — enfraquecimento do sistema de defesa do organismo, com comprometimento severo em grande parte dos avaliados;
💠 Resíduo de DDT no sangue — metade da amostra testada apresentou o pesticida banido no Brasil há 30 anos, revelando contaminação acumulada ao longo de décadas.
As doenças que estão matando esses profissionais
Os dados do estudo da Fiocruz não ficam no campo das alterações laboratoriais. Eles se traduzem em doenças concretas, internações e mortes. Pesquisa da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), publicada em agosto de 2025, analisou 216 mortes de Agentes Comunitários de Saúde no Rio de Janeiro entre 2010 e 2024 e revelou que 60% delas poderiam ter sido evitadas.
Os ACE morrem, em média, aos 55 anos — 21,6 anos antes da expectativa de vida da população brasileira, fixada em 76,6 anos pelo IBGE em 2024. Entre as doenças identificadas pelo estudo da ENSP/Fiocruz estão:
💠 Doenças cardiovasculares e hipertensão arterial;
💠 Doenças respiratórias — responsáveis por 39% das mortes entre os ACE analisados;
💠 Depressão e outros transtornos de saúde mental;
💠Câncer — identificado em 15% das mortes, diretamente associado à exposição a agrotóxicos cancerígenos.
O problema que vai para além do trabalho — e chega em casa
Um dos pontos mais preocupantes debatidos na audiência pública foi a contaminação doméstica. Os Agentes de Combate às Endemias, em muitos municípios, voltam para casa com as mesmas roupas usadas durante a aplicação dos produtos químicos.
Sem protocolos de troca e lavagem nos locais de trabalho, os resíduos de agrotóxico chegam às famílias desses profissionais. A lógica é simples e aterrorizante: o veneno que entra no organismo do trabalhador durante o dia volta com ele para dentro de casa à noite.
O EPI que falta — e a lei que ainda não chegou
A audiência pública reuniu pesquisadores, deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e representantes de sindicatos de trabalhadores. O deputado Carlos Minc, presente no evento, afirmou que “muito provavelmente serão necessárias novas leis para proteger esses trabalhadores e também para banir alguns produtos químicos.”

Existe um projeto de lei em andamento na Alerj que prevê a obrigatoriedade do fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPI) para esses profissionais. Entre os pontos debatidos como urgentes estão:
💠Obrigatoriedade do fornecimento de EPI completo — incluindo roupas especiais que devem ser lavadas no próprio local de trabalho, não na residência do profissional;
💠 Revisão dos produtos químicos autorizados — com substituição periódica dos inseticidas diante da resistência crescente dos mosquitos;
💠 Inclusão dos danos ocupacionais como critério legal para a Aposentadoria Especial dos ACE;
💠 Banimento formal de substâncias já identificadas como cancerígenas e neurotóxicas no protocolo de Combate às Endemias.
A ciência que sustenta a urgência da PEC 14
A pesquisadora Ariane Larentis foi precisa ao apontar o problema estrutural: “O que a gente está vendo é um processo de longa exposição de um modelo que a gente utiliza no Brasil, que é do estado, de combater endemias não da forma com que deveria ser — eles indo nas casas, ensinando a população como fazer o combate das doenças.”
O estudo defende o abandono progressivo dos produtos químicos em favor da educação em Saúde Pública. E os dados são a base científica mais sólida já produzida para justificar a aprovação urgente da PEC 14/2021, que prevê Aposentadoria Especial aos 50 anos para mulheres e 52 anos para homens com 25 anos de exercício na função.
Quem combate a dengue também precisa ser protegido
O Brasil exige que seus Agentes de Combate às Endemias enfrentem venenos, sol, risco biológico e contaminação química para proteger a população. Em troca, oferece salário próximo ao mínimo, EPI incompleto e uma aposentadoria que ainda não existe na prática.
A Fiocruz fez sua parte: produziu evidência científica robusta e irrefutável. Agora, o que falta é vontade política para transformar esses dados em legislação que proteja quem está na Linha de Frente da Saúde Pública.
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