Como pesquisadoras do Paraná e da Fiocruz encontraram cocaína no sangue de tubarões no Caribe-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

13/05/2026

Um estudo publicado na revista científica Environmental Pollution identificou pela primeira vez a presença de cocaína, cafeína e medicamentos como paracetamol e diclofenaco no sangue de tubarões nas Bahamas. A pesquisa foi conduzida por uma pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e analisou 85 animais de cinco espécies diferentes.

De acordo com as autoras do estudo, o achado não se limita à detecção das substâncias, já que também levanta alertas sobre alterações metabólicas nos animais e reforça a hipótese de que contaminantes químicos estão disseminados na cadeia alimentar – inclusive em regiões consideradas preservadas.

As coletas ocorreram na região de Eleuthera, nas Bahamas, onde vivem tubarões costeiros. O sangue dos animais foi retirado de forma não letal, processado em laboratório e analisado.

A bióloga e pesquisadora da Fiocruz Rachel Ann Hauser-Davis explicou ao Estadão que, na prática, o método separa as substâncias presentes no sangue e depois identifica cada uma por sua “assinatura química”. O processo permite detectar quantidades muito pequenas de compostos no organismo dos animais. “Cada substância precisa aparecer no tempo certo na análise e ter massas específicas, como uma impressão digital química”, disse.

O que foi encontrado nos tubarões

Entre os 85 tubarões analisados, os pesquisadores identificaram traços de cocaína, cafeína, paracetamol ou diclofenaco (um anti-inflamatório) em 28 deles. Os compostos aparecem em espécies como o tubarão-limão, o tubarão-lixa e o tubarão-de-recife-do-caribe. Em alguns casos, havia mais de uma substância no mesmo animal.

Principal autora do estudo, a pesquisadora colaboradora da UFPR Natascha Wosnick afirma que o resultado mais impactante não foi apenas a lista de substâncias, mas o contexto em que elas surgem. “O que nos deixou mais surpresas é o fato de estar falando das Bahamas, um lugar visto como paradisíaco. Isso significa que aquele ambiente não está tão preservado como parece”, diz.

Segundo ela, a presença desses compostos no topo da cadeia alimentar indica que o restante do ecossistema também está exposto. Para os pesquisadores envolvidos no trabalho, o estudo reforça que a poluição química marinha é subestimada justamente por não ser visível.

A ex-coordenadora do programa de pesquisa e conservação de tubarões do Cape Eleuthera Institute, nas Bahamas, reconhece ainda que esse tipo de contaminação exige métodos caros e complexos de detecção, o que reduz o monitoramento global. Segundo ela, isso faz com que o problema passe despercebido em comparação a outros tipos de poluição, como plástico ou óleo. “A poluição química não é vista. Você precisa de muito investimento para comprovar isso”, destaca.

O que acontece dentro dos tubarões



O sangue dos animais foi retirado de forma não letal, processado em laboratório e analisado.

O sangue dos animais foi retirado de forma não letal, processado em laboratório e analisado.

Foto: IOC/Fiocruz/Divulgação / Estadão

Além de identificar as substâncias, o estudo avaliou marcadores fisiológicos como triglicerídeos, ureia e lactato, ou seja, indicadores do metabolismo dos animais. A comparação entre tubarões contaminados e não contaminados revelou alterações consistentes em processos ligados ao uso de energia.

Wosnick explica, contudo, que ainda não é possível afirmar uma causa direta. “A gente não pode bater o martelo”, diz. “Mas os animais com contaminantes apresentaram alterações metabólicas mais consistentes.”

Segundo ela, isso pode indicar que a eficiência energética dos tubarões está sendo afetada. “A energia que eles tiram da comida pode não estar sendo usada da forma ideal para o metabolismo e atividades diárias”, explica.

Efeitos na sobrevivência ainda são incertos

As pesquisadoras afirmam que ainda não é possível determinar impactos diretos na reprodução ou sobrevivência das espécies. Isso ocorre porque estudos desse tipo exigiriam experimentos invasivos, o que não é compatível com tubarões, animais já ameaçados de extinção. Wosnick lembra que a pressão sobre esses animais é alta. “São cerca de 100 milhões de tubarões mortos por ano pela pesca”, afirma.

Por isso, os estudos são feitos com captura não letal, coleta de sangue e devolução dos animais ao ambiente.

O Brasil já viu esse fenômeno

O estudo, destacam as autoras, não é isolado. A mesma equipe já havia identificado concentrações ainda maiores de cocaína em 13 tubarões no litoral do Rio de Janeiro. “No Brasil, vimos concentrações muito mais altas de cocaína”, diz Wosnick. A droga foi encontrada nos fígados e músculos dos animais.

Segundo ela, isso indica que a contaminação não está restrita a áreas urbanizadas. A comparação entre os dois cenários, um altamente urbano e outro considerado remoto, reforça a ideia de que o problema é disseminado.

A pesquisadora da Fiocruz reforça essa interpretação. Para Rachel Ann Hauser-Davis, os dados apontam para um fenômeno mais amplo. “Estamos começando a ver uma impressão digital global da química humana no oceano”, afirma. Segundo ela, essas substâncias chegam ao mar principalmente por:

– esgoto doméstico;

– descarte incorreto de medicamentos;

– turismo em áreas costeiras;

– excreção humana.

Segundo os pesquisadores, muitos desses contaminantes chegam ao mar porque não são completamente eliminados pelos sistemas de tratamento de água.

A engenheira ambiental e doutora pela Universidade da Flórida Tracy Fanara, que não participou da pesquisa, destacou em entrevista ao Estadão que o ponto mais importante não é apenas a presença das substâncias, mas os efeitos metabólicos observados. “Se os tubarões estão redirecionando energia para desintoxicação ou estresse, isso pode afetar o crescimento, a reprodução e a resiliência”, afirma.

Ela também ressalta que os dados indicam exposição contínua. “Isso indica a presença ativa de efluentes no ambiente”, diz a ex-colaboradora da Agência de Atmosfera e Oceanos dos EUA (NOAA).

Risco para humanos ainda é incerto

Os pesquisadores não identificam risco direto à saúde humana neste momento, mas apontam para a possibilidade de bioacumulação ao longo da cadeia alimentar. No Brasil, a carne de tubarão — vendida como “cação” — já faz parte da alimentação em algumas regiões. Wosnick reforça que, embora os níveis sejam baixos, o tema exige atenção. “A gente come carne com mercúrio o tempo inteiro”, compara.

Para os cientistas, a mitigação total da poluição química nos oceanos é extremamente difícil. Wosnick afirma que o problema depende principalmente de políticas públicas. “São necessárias ações em saneamento, educação ambiental e controle de despejo”, diz.

Ela também faz um alerta mais amplo sobre os impactos. “O colapso dos oceanos vai, de forma inevitável, atingir os seres humanos.”

O estudo

Publicado em março de 2026, o estudo reforça que a interferência humana no oceano não é apenas visível — ela também é química, contínua e com sinais de alcance global. A presença de substâncias humanas no sangue de tubarões mostra que mesmo ecossistemas distantes já estão conectados às atividades terrestres.

Apesar dos achados, o estudo ainda tem limitações. Segundo a pesquisadora da Fiocruz Rachel Ann Hauser-Davis, não é possível comprovar causa e efeito nem prever impactos a longo prazo. Além disso, a análise foi feita apenas no sangue, o que indica exposição recente, com uma amostra limitada. Como próximos passos, a pesquisa deve avançar para a análise de outros tecidos, ampliar os testes experimentais, monitorar os níveis ao longo do tempo e comparar diferentes regiões.


Source link

Você pode se precisar disso:

Produtos Recomendados

Cabo USB Alimentação Energia Dc 3,5mm Nebulizador-radardasaude

Cabo USB Alimentação Energia Dc 3,5mm Nebulizador-radardasaude

Ver na Amazon
Livro de Receitas – Doces para empreender (Portuguese Edition)

Livro de Receitas – Doces para empreender (Portuguese Edition)

Ver na Amazon
Ômega 3 1000mg Rico em EPA DHA com Selo IFOS e Vitamina E – 60 cápsulas Vhita-radardasaude

Ômega 3 1000mg Rico em EPA DHA com Selo IFOS e Vitamina E – 60 cápsulas Vhita-radardasaude

Ver na Amazon
Puravida Suplemento alimentar Ômega 3 DHA 60 cápsulas

Puravida Suplemento alimentar Ômega 3 DHA 60 cápsulas

Ver na Amazon
Espaçador Inal-Air Infantil

Espaçador Inal-Air Infantil

Ver na Amazon

* Links de afiliado. Podemos receber uma comissão por compras qualificadas.

Conteúdo Indicado

Como enlouquecer qualquer homem na cama e fora dela

Melhore sua autoestima, aprenda técnicas de conquista e sedução que faz com que um homem fique obcecado por você e deixe qualquer homem louvo de desejo por você...

Saiba mais

Esteatose Hepática pode ser revertida com esse simples tratamento...

A gordura no fígado não tratada pode evoluir de forma gradual. Inicialmente, ocorre a esteatose hepática (fígado gorduroso). O tratamento precoce pode evitar essa progressão...

Saiba mais

Essa cena nunca mais se repetiu na minha vida depois disso...

Especialistas descobrem fórmula que pode deixar qualquer homem mais ativo na hora H...

Saiba mais

Pesquisas apontam: Falar inglês triplica a renda

Estudos comprovam que falar inglês pode triplicar seus rendimentos em empresas nacionais e internacionais. Quer aprender rápido com uma gringa?

Saiba mais

Não entre nesse anúncio se você não quer parar de fumar...

Revelado segredo para quem quer parar de fumar começando ainda hoje...Escolha o MELHOR TRATAMENTO PARA O SEU CORPO E ORGANISMO!

Saiba mais

Como parar de comer em excesso, ter mais saúde e viver mais...

Sem dietas malucas ou exercícios físicos, comendo o suficiente para ter saúde e viver mais com qualidade de vida...

Saiba mais

Livre-se das dores em um estalar de dedos com essa fórmula...

Depois que você conhecer essa fórmula esqueça as dores articulares... Médico ensina método validado para tratamento eficaz contra dores articulares e no corpo

Saiba mais
Please follow and like us:

Deixe um comentário