
Uma frase simples — “estou aqui com você” — pode evitar o agravamento de uma crise. Integrantes da Câmara Técnica de Enfermagem em Saúde Mental (CTESM/Cofen) explicam como a abordagem a uma pessoa em crise pode determinar o desfecho do atendimento. Evidências científicas mostram que comunicação terapêutica e desescalonamento verbal reduzem a necessidade de contenções e contribuem para prevenir mortes.
“O maior desafio não é apenas a crise psiquiátrica em si, mas preparar profissionais para responder a ela com competência técnica, segurança e humanidade. Temos a falta de qualificação profissional para lidar com pacientes psiquiátricos, especialmente em crise”, afirma a professora Dorisdaia Humerez (CTESM/Cofen e Unifesp). Se os profissionais de Saúde nem sempre estão preparados, o que dizer das forças de segurança?
“A chegada da polícia está associada a um risco de morte do paciente. Faltam levantamentos oficiais, mas o que a experiência empírica nos mostra, e isso também se verificas nas notícias, é que a pessoas em crise psicótica são percebidas com um risco a ser neutralizado o mais rápido possível pelos agentes de segurança, terminando mortas nas abordagens”, destaca Dorisdaia. “Na Saúde Mental, não podemos ter pressa. Intervenções baseadas em evidências indicam que o uso da comunicação terapêutica e afetiva, empatia e desescalonamento verbal podem reduzir significativamente a necessidade de contenção física ou química”, afirma.
“Muitas vezes, a assistência prestada não está alinhada com as novas políticas de atenção à saúde mental. As deficiências estruturais e formativas comprometem significativamente a qualidade do atendimento”, afirma a professora, destacando a necessidade de educação continuada e suporte especializado aos profissionais e implementar melhorias nas práticas de atendimento em urgência e emergência psiquiátrica.
“A contenção verbal e afetiva tem sido a forma mais apropriada de evitar contenção farmacológica ou física, embora em alguns momentos elas possam ser necessárias. Na prática clínica, pequenas expressões como: estou aqui com você, vamos fazer isso juntos ou aguarde, não temos pressa podem reduzir significativamente a ansiedade e favorecer o restabelecimento do autocontrole”, explica Dorisdaia.
Demanda de Saúde não é caso de polícia

“A Política de Nacional de Atenção às Urgências estabelece que as situações de crise, denominadas de emergências psiquiátricas em ambiente não-hospitalar devem ser atendidas pelas Equipes de Atenção Primária à Saúde e Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), que podem contar com o apoio das Forças de Segurança”, explica o coordenador da CTESM/Cofen e professor da UFFS, Anderson Funai.
“O grande desafio é que os atores da saúde construam essa pactuação junto aos recursos de apoio para que os cuidados em um momento crítico sejam tratados como uma demanda de saúde e não de segurança”, ressalta Anderson. “Existem experiências pelo país onde essa pactuação é bem estabelecida, porém infelizmente vemos nas mídias situações com desfecho inadequado e até mesmo morte”, afirma o professor.
Como a Enfermagem deve abordar paciente em risco
A Saúde Mental está em todos os níveis da assistência. Unidades Básicas de Saúde (UBS) são parte da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) desde sua formulação original, em 2011. Junto com os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), são portas de entrada na rede e ordenadoras do cuidado.
“Não é um conhecimento que possa estar restrito a especialistas”, reforça Anderson Funai, lembrando que situações de crise em Saúde Mental podem ocorrer em qualquer ambiente, desde uma sala de aula, rua, Unidade Básica de Saúde e hospital. “A publicação do Ministério da Saúde Cadernos de Atenção Básica número 34 traz informações valiosas sobre o manejo de situações de Crise aplicáveis para os diversos profissionais da saúde”, recomenda.
O próprio ambiente hospitalar e complicações decorrentes de outras enfermidades pode gerar crises. Em janeiro, Luís Claudio Dias foi morto a tiros na UTI Hospital Municipal de Morrinhos (GO), após surto atribuído a hipoglicemia. Luiz tratava uma pneumonia, era diabético e não tinha histórico de transtorno psiquiátrico.
“O manejo da agitação psicomotora deve priorizar intervenções não coercitivas, preservando a dignidade, a autonomia e a segurança da pessoa em sofrimento psíquico”, explica Dorisdaia. Doutora em Enfermagem e Saúde Mental, ela orienta as equipes a descalonar situações de risco:
- Avaliação rápida do risco para si próprio e para os outros. Identificar sinais precoces de agitação ou comportamento agressivo, monitorando fatores de risco como delirium, alucinação ou histórico de violência
- Redução de estímulos ambientais: reorganizar o ambiente buscando que a pessoa não sinta que está sendo ameaçada
- Desescalonamento verbal
- Comunicação terapêutica: Mantenha uma atitude calma, empática e confiante, sem que haja demonstração de medo ou ansiedade, mas mantendo um distanciamento que dê segurança
- Trabalho em equipe multiprofissional. Importante que a equipe esteja treinada e que apenas um dos membros fale com a pessoa, mantendo uma escuta em tom baixo e todos fiquem alertas caso haja riscos
- As intervenções coercitivas — como contenção farmacológica ou mecânica, são consideradas medidas de exceção, aplicadas apenas quando métodos não farmacológicos falham e há risco iminente à vida
De olho na Resolução
A Resolução Cofen 678/2021 normatiza a atuação da equipe de enfermagem em saúde mental e psiquiatria. A equipe deve atuar de forma integrada na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), cabendo ao enfermeiro elaborar e gerenciar planos de cuidado e Projetos Terapêuticos Singulares, que devem contemplar, inclusive, procedimentos em situações de crise.
Já no âmbito das políticas públicas, a organização da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), instituída pela Portaria GM/MS 3.088/2011, e os princípios da Reforma Psiquiátrica orientam a assistência em todos os pontos de atenção. Somam-se a essas normas os protocolos institucionais e as diretrizes clínicas dos serviços de saúde.
Fonte: Ascom/Cofen – Clara Fagundes
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