Iris Pacheco (Psat/Fiocruz Brasília)
Entre os dias 13 e 17 de abril, os residentes da 6ª turma do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família com Ênfase na Saúde da População do Campo (PRMSFCampo) participaram de mais um módulo de formação. A atividade foi dedicada ao tema da saúde do homem, conduzida pelo pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), José Maria Viana dos Santos, e ao debate sobre a saúde da pessoa idosa, com a pesquisadora colaboradora do Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat) da Fiocruz Brasília, Rosely Arantes.
No Brasil, a saúde do homem é orientada pela Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), instituída pela Portaria GM/MS nº 3.562, de 12 de dezembro de 2021. Embora essa política estabeleça competências e atribuições para o Ministério da Saúde, estados e municípios, tais como fomentar e acompanhar sua implementação, respeitando as diversidades regionais, o acesso efetivo aos serviços de saúde ainda representa um desafio, especialmente para homens que vivem e trabalham em áreas rurais.
Na avaliação do pesquisador da UnB, há um descompasso entre o que está previsto nas políticas públicas e o que, de fato, chega à população. Segundo ele, o problema não está apenas na existência da política, mas na sua operacionalização concreta no território. “Há um descompasso significativo entre a formulação da política e sua implementação. Os principais desafios não se restringem à existência da política, mas à sua efetivação na Atenção Primária à Saúde (APS). Embora represente um avanço, ela ainda é insuficiente na prática, sobretudo pela fragilidade na gestão, na organização dos serviços e na formação dos profissionais”, afirma.
Ainda de acordo Viana, um dos principais entraves é a baixa priorização da saúde do homem por gestores locais, o que se reflete em serviços pouco estruturados, sem ações contínuas e direcionadas a esse público. Além disso, persistem lacunas na formação dos profissionais de saúde, especialmente no que se refere ao acolhimento e à escuta qualificada.
“Trata-se de um fenômeno sociocultural e institucional. Do ponto de vista cultural, persistem padrões de masculinidade associados à ideia de força, invulnerabilidade e ao papel de provedor. O adoecimento é frequentemente percebido como sinal de fraqueza, e há uma tendência de buscar cuidado apenas em situações agudas ou graves”, explica.
Para o pesquisador, a comunicação em saúde também se apresenta como um ponto crítico nesse processo. Ele destaca que, quando há atividades direcionadas, horários ampliados e ações no território, os homens tendem a participar mais. No entanto, “se não há divulgação adequada, se o agente comunitário de saúde não está preparado para abordar esse público e se não há linguagem acessível e direcionada, o cuidado não se concretiza. Assim, a baixa procura resulta de uma desarticulação entre política, serviço e usuário”, relata.
Ao tratar sobre a saúde da pessoa idosa, Rosely Arantes também destaca a comunicação em saúde como um desafio a ser encarado, e afirma que é fundamental desenvolver estratégias adequadas às realidades da população idosa, especialmente nos territórios rurais. “Estamos falando de populações com altos índices de analfabetismo e exclusão digital. É preciso repensar como comunicar, como informar e, sobretudo, construir esse processo junto com essas pessoas, e não apenas para elas”, afirma.
Para a população masculina do campo, os desafios são ainda maiores
Entre trabalhadores rurais, pescadores e populações do campo, das florestas e das águas, a situação se torna ainda mais complexa. Uma reportagem da Fundação Oswaldo Cruz evidencia a relação ainda frágil entre homens do campo e os serviços de saúde, marcada por barreiras culturais, institucionais e territoriais.
Trata-se de uma combinação de fatores que dificultam o cuidado em saúde. “Quando analisamos populações como trabalhadores rurais, povos do campo, florestas e águas, a questão se torna ainda mais complexa e marcada por iniquidades estruturais. Nesses grupos, a saúde do homem é atravessada por condições de trabalho e exposição a riscos, barreiras de acesso, distância geográfica dos serviços e invisibilidade institucional”, reflete Viana.
Além desses agravantes, é preciso considerar a invisibilidade dessas populações nas políticas públicas, muitas vezes pensadas a partir de uma lógica urbana, sem contemplar as especificidades culturais e territoriais do campo ou até mesmo as diferentes faixas etárias da população que requer esse atendimento.
Nesse sentido, Arantes chama atenção para a necessidade de reconhecer a diversidade das experiências de envelhecimento. “Estamos falando de velhices no plural. Homens e mulheres envelhecem de formas diferentes, assim como as populações do campo, das florestas e das águas têm processos distintos em relação ao contexto urbano”, explica.
A pesquisadora ainda defende o fortalecimento da formação profissional e da rede pública de saúde para atender essa população. “É preciso ampliar a formação de médicos capacitados para cuidar das pessoas idosas, como geriatras, e garantir que a rede pública ofereça atenção especializada. Mas esse cuidado não pode começar apenas aos 60 anos, é necessário se preparar ao longo da vida para que o envelhecimento não seja marcado pelo adoecimento, pela fragilidade ou pela desassistência”, ressalta.
Envelhecer no campo: desafios ampliados
Ao abordar a saúde da pessoa idosa nesses territórios, Rosely Arantes destaca que o envelhecimento ainda é um desafio estrutural para o sistema de saúde, especialmente diante das desigualdades sociais e territoriais. “O envelhecimento impacta diretamente o SUS, principalmente porque vivemos em uma sociedade que não se prepara para essa etapa da vida. É preciso entender que envelhecer é parte do ciclo da vida, e é também uma conquista”, afirma.
A pesquisadora lembra que o aumento da população idosa é um fenômeno relativamente recente, sobretudo na América Latina, o que exige novas respostas do poder público. No Brasil, a pessoa idosa é definida por lei como qualquer indivíduo com 60 anos ou mais. E alguns dispositivos já buscam garantir os direitos dessa parcela da população, como o Estatuto do Idoso (Lei 10.741/03) que é um marco histórico que possibilitou a regulação, a proteção e a ampliação dos direitos, assegurados também na Política Nacional do Idoso (Lei Federal nº 8.842/1994).
Posteriormente, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), instituída pela Portaria nº 2.528/2006, foca na manutenção da capacidade funcional, autonomia e independência dessa população no conjunto da sociedade. No entanto, esse processo não tem sido acompanhado por políticas e serviços capazes de garantir dignidade à população idosa. “O problema é que esse envelhecimento não vem acompanhado do conjunto de políticas que sustentem essa fase da vida”, ressalta.
Rosely chama atenção ainda para a diversidade das experiências de envelhecer, frequentemente ignorada nas políticas públicas. “Não existe uma velhice única. A velhice de um trabalhador rural, de um cortador de cana, não é a mesma de um grande proprietário. Estamos falando de várias velhices, marcadas por desigualdades de classe e condições de vida”, explica.
Nesse contexto, é necessário enfrentar alguns desafios do envelhecimento e reconhecê-lo como uma etapa natural da vida, que exige preparo e cuidado ao longo do tempo. “A velhice é uma fase da vida e precisa ser acompanhada de informação e conhecimento. É fundamental compreender todas as dimensões que envolvem o envelhecer e garantir uma rede de atenção e proteção que assegure dignidade”, afirma.
A necessidade de reorganizar o cuidado
Diante desse cenário, especialistas apontam a necessidade de reorganizar o cuidado e alterar a lógica da Atenção Primária à Saúde (APS). Em vez de esperar que o usuário se adapte ao serviço, é o sistema que deve se reorganizar a partir das realidades locais.
“A APS precisa assumir um papel ainda mais estratégico, com ações itinerantes e territoriais, busca ativa, educação em saúde contextualizada e articulação com saberes locais. A lógica deve ser invertida: não é o sujeito que deve se adaptar ao serviço, mas o serviço que deve se reorganizar a partir do território”, afirma Viana.
E conclui: “se o serviço não mudar, o usuário continuará sendo culpabilizado, e isso não é cuidado, é exclusão”.
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