Com objetivo de oferecer instrumentos de combate ao racismo em equipamentos públicos e espaços de convívio nas favelas, a Coordenação de Cooperação Social da Fiocruz e o Movimento Negro Unificado do Rio de Janeiro (MNU-RJ) lançaram uma cartilha sobre saúde antirracista elaborada para uso de moradoras, moradores e profissionais dos territórios de favelas e periferias. O material apresenta orientações práticas, análises e contribuições de pesquisadores, profissionais da área da saúde, educação, segurança e moradores do território e já está disponível para download. Acesse a cartilha.
O lançamento da publicação ocorreu no sábado do dia 18 de abril, durante seminário que reuniu pesquisadores da Fiocruz, profissionais de saúde, moradores de favelas, articuladores de promoção da saúde e militantes do Movimento Negro Unificado no Instituto Social Acemades, em Vicente de Carvalho, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Fotos presentes na matéria: Gabriela Britis
O evento começou com a exibição do documentário Nzila: Favela, Ancestralidade e Saúde Antirracista que destaca a ancestralidade como base das lutas por dignidade e justiça nas favelas. Nzila (“caminho” na língua Bantu) é um produto de divulgação científica que valoriza e promove as tecnologias sociais construídas a partir dos saberes populares e da ciência. O filme foi realizado no âmbito do projeto Saúde na favela pela perspectiva antirracista e destaca as práticas antirracistas desenvolvidas por coletivos e movimentos sociais.
A mesa de debates contou com a presença de Heitor Silva, coordenador da Educação de Jovens e Adultos da Fiocruz (EJA-Fiocruz) pela Cooperação Social da presidência da Fiocruz; João Batista, professor de História do Município de Duque de Caxias e atual coordenador estadual do Movimento Negro Unificado do Rio de Janeiro (MNU-RJ); Miriam de Oliveira, psicóloga e Promotora popular de saúde antirracista de Vila aliança; e Vanda de Souza, coordenadora do Movimento Negro Unificado do Espírito Santo (MNU-ES).
“Para promover a saúde antirracista nos territórios, é preciso articular ações clínicas e políticas. Nas formações, moradores passaram a reconhecer o racismo em suas vivências e a romper o silenciamento. As pessoas que estão na favela veem a violência, sentem a violência, mas nem sempre sabem que isso é de ordem racial. A favela é silenciada, as pessoas são silenciadas, mas nossa intenção é fazer barulho”, explicou Miriam de Oliveira, psicóloga e Promotora popular de saúde antirracista de Vila aliança coordenadora do projeto na Vila Aliança.
A professora de filosofia e coordenadora do Movimento Negro Unificado do Espírito Santo, Vanda de Souza, destacou que “a maioria das coordenações locais e dos participantes do projeto é formada por mulheres, que buscam conhecer seus direitos e se fortalecer diante das violências cotidianas, dentro e fora de casa. A formação contribui para ampliar essa compreensão, ao reforçar que seu papel não é apenas cuidar, mas também lutar para que o cuidado seja uma responsabilidade coletiva”.
João Batista Carvalho, professor de História do município de Duque de Caxias e atual coordenador estadual do MNU-RJ, afirmou que a favela é um território majoritariamente negro e destacou a importância de fortalecer a presença de iniciativas como pré-vestibulares, projetos sociais e equipamentos de saúde nesses espaços, incentivando a população a se apropriar do próprio território.
“Nós lutamos para adquirir esse direito, pessoas que apanharam, morreram, sangraram para que a gente tivesse o direito de estar aqui e de lutar. A gente tem que reverenciar os que vieram antes de nós e pensar que se a luta hoje é muito difícil, ela já foi muitíssimo pior”, relatou encerrando a mesa de debates.
O microfone foi aberto para perguntas e contribuições do público, que em sua maioria relataram suas experiências durante a formação e a importância da luta antirracista para a sobrevivência. O seminário encerrou o seu debate com a apresentação doGrupo Música na Calçada, formado por alunos da Escola de Música de Manguinhos, com repertório popular e autoral.
Ao final do evento, o livreto foi distribuído para todas as pessoas presentes. O lançamento da cartilha Saúde na Favela Numa perspectiva Antirracista integra um conjunto de ações voltadas para os territórios de atuação do projeto, com previsão de novos ciclos de exibição do documentário e distribuição de exemplares físicos da publicação nos equipamentos de saúde e escolas localizadas nas sete favelas que receberam a formação de promotores populares de saúde antirracista. A expectativa é que a cartilha seja amplamente utilizada pelos profissionais de saúde, moradores, professores, alunos e trabalhadores ampliando o alcance do debate e incentivando práticas antirracistas e preservação dos direitos humanos.
Conflitos armados foram ponto crítico do processo formativo
O ano de 2025 foi marcado por fortes desafios à implementação do projeto nos territórios, devido a operações policiais letais em favelas da capital e da região metropolitana. As ações impactaram diretamente o cotidiano das comunidades, com interrupções frequentes de aulas e fechamento de clínicas da família, especialmente em áreas como Mangueirinha, Vila Aliança e Vila Cruzeiro, comprometendo o acesso à educação e à saúde.
Na semana de encerramento do curso em Cidade Alta, Mangueirinha e Vila Cruzeiro, ocorreu a operação policial mais letal do país, no Complexo da Penha, em outubro de 2025, que resultou em 122 mortes. O episódio gerou forte impacto psicológico nos moradores dos Complexos da Penha e do Alemão.
A cartilha é produto da experiência desenvolvida durante o ciclo de formação do projeto e apresenta diagnósticos das sete favelas do Rio de Janeiro que participaram: Manguinhos, Jacarezinho, Rocinha, Vila Cruzeiro, Cidade Alta, Mangueirinha e Vila Aliança. Além disso, o material destaca a importância de reconhecer as especificidades de cada território, ao mesmo tempo em que evidencia desigualdades estruturais. Um exemplo é a diferença na expectativa de vida entre bairros da cidade: enquanto moradores da Gávea vivem, em média, 80 anos, no Complexo do Alemão essa média é de cerca de 65 anos, refletindo fatores como renda, alimentação e acesso a serviços de saúde.
“Esses lugares, distintos entre si, são unidos pela falta, mas também possuem suas identidades próprias e nós precisamos escrever sobre elas. Essa cartilha apresenta essa complexidade por meio de uma abordagem humana, e que foi materializada pelo esforço dos moradores e profissionais dessas sete favelas”, explicou Leonardo Brasil Bueno, coordenador do projeto na Fiocruz.
Cerca de 80% dos usuários do Sistema Único de Saúde se autodeclaram negros, grupo que também concentra os maiores índices de morbimortalidade. O conteúdo evidencia como o racismo estrutural e institucional ainda dificulta o acesso equitativo aos serviços de saúde.
Como parte desse esforço, o projeto propõe a formação de promotores populares de saúde antirracista, com atuação voluntária nos territórios, visando fortalecer redes de solidariedade e ampliar o acesso à informação e à defesa do Sistema Único de Saúde.
Sobre o projeto
Saúde na Favela pela Perspectiva Antirracista visa a formação em promoção da saúde com acolhimento, escuta ativa e enfoque antirracista voltada para moradores de sete favelas do Rio de Janeiro que tenham passado por violações de direitos humanos. Também visa analisar as demandas locais frente à disponibilidade de serviços psicossociais para moradores dessas favelas na perspectiva antirracista do compartilhamento de saberes ancestrais, sobretudo reconhecendo e valorizando tais saberes, que estão presentes nos lugares de atuação do projeto. O projeto é realizado pela Coordenação de Cooperação Social da Fiocruz, em parceria com o Movimento Negro Unificado (MNU-RJ).
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