Uma pesquisa liderada pela Fiocruz e destacada na capa da revista científica internacional ACS Infectious Diseases apontou novos caminhos para o desenvolvimento de medicamentos contra o Schistosoma mansoni, verme responsável pela esquistossomose.
Popularmente conhecida como ‘barriga d’água’ ou ‘doença dos caramujos’, a esquistossomose integra o grupo das doenças negligenciadas e afeta principalmente populações que vivem em áreas sem saneamento básico.
No Brasil, cerca de 1,5 milhão de pessoas vivem em áreas com transmissão da doença, segundo o Ministério da Saúde. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente 700 milhões de pessoas estejam sob risco de infecção em todo o mundo.
O estudo foi conduzido pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e investigou moléculas derivadas do praziquantel, medicamento atualmente utilizado no tratamento da esquistossomose.
Por que pesquisadores buscam alternativas ao praziquantel
Utilizado há cerca de 40 anos no tratamento da esquistossomose, o praziquantel combate a doença de forma eficaz. Ainda assim, algumas características do medicamento motivam a busca por alternativas.
O tamanho do comprimido e o sabor amargo dificultam a administração, especialmente entre crianças. Além disso, pesquisadores já observaram, em condições experimentais, vermes que desenvolveram resistência ao fármaco.
Apesar disso, situações desse tipo nunca foram identificadas em trabalhos de campo de forma que fossem consideradas um problema de saúde pública.
“É importante buscar alternativas ao praziquantel. Nosso objetivo é chegar a medicamentos que possam ser otimizados do ponto de vista farmacológico, facilitando a administração e garantindo uma opção na eventualidade de resistência”, afirma Floriano Paes, chefe do Laboratório de Bioquímica Experimental e Computacional de Fármacos do IOC/Fiocruz e primeiro autor do estudo.


avaliar efeitos de compostos sobre suas formas juvenis. Foto: Rudson Amorim, IOC/Fiocruz
Três moléculas apresentaram atividade semelhante ao medicamento atual
Combinando ensaios laboratoriais e análises computacionais, os cientistas identificaram três moléculas com atividade contra o verme causador da esquistossomose em níveis semelhantes aos observados com o medicamento de referência.
Além desse resultado, a equipe encontrou uma característica inesperada relacionada ao mecanismo de ação dos compostos, descoberta que pode contribuir para futuras pesquisas na área.
“Dados de diversos trabalhos indicavam que o praziquantel se liga quase perfeitamente a uma proteína do parasito, que atua como um receptor. Porém, nós observamos que este receptor tem plasticidade, ou seja, ele consegue abrir espaço para ligação com moléculas um pouco diferentes. Isso abre possibilidade de explorar novos caminhos para desenhar compostos que superem deficiências do praziquantel”, explica Floriano.
O trabalho contou ainda com a participação da Faculdade de Medicina de Wisconsin, nos Estados Unidos, da Universidade Aberystwyth, no Reino Unido, e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Descoberta pode orientar o desenvolvimento de novos fármacos
As oito moléculas avaliadas pelos pesquisadores possuem estrutura química semelhante à do praziquantel, mas apresentam pequenas modificações realizadas pela equipe científica.
Entre elas, três compostos se destacaram por atuar em diferentes fases do ciclo de vida do S. mansoni presentes no organismo humano: vermes adultos, formas juvenis e larvas, chamadas de esquistossômulos.


modificações realizadas pelos cientistas. Foto: Rudson Amorim, IOC/Fiocruz
Os testes mostraram ainda que essas substâncias atuam de forma semelhante ao tratamento já utilizado, ligando-se à proteína do verme conhecida pela sigla TRPM.
Embora os compostos não tenham demonstrado potência superior à do praziquantel contra vermes adultos, os pesquisadores consideram que as características observadas tornam essas moléculas interessantes para futuras otimizações estruturais.
“Com base nos resultados, podemos propor modificações mais racionais na estrutura desses compostos para atuar na forma como eles se ligam ao receptor, aumentando a afinidade”, declara Floriano.
Próxima etapa inclui testes em roedores
A pesquisa deve avançar agora para ensaios experimentais in vivo.
“No modelo de infecção em roedores, queremos investigar como essas moléculas se comportam no organismo em comparação ao praziquantel e verificar se é possível melhorar aspectos farmacológicos”, diz o pesquisador.
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