Protagonismo da comunidade marca atuação da Fiocruz no DF-radardasaude

Joabe Antonio de Oliveira

24/04/2026

Manuela Sá*

Em 2026, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), voltada à saúde e ao desenvolvimento social, comemora 50 anos em Brasília. As ações da instituição na cidade ao longo dessas cinco décadas foram tema do Podcast do Correio desta quinta-feira (23/4). Às jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte, Fabiana Damásio, diretora da Fiocruz Brasília, destacou o protagonismo da população na promoção da saúde pública, ações para idosos, o projeto Ecoilê e uma exposição que será inaugurada na próxima segunda-feira retratando a força dos povos indígenas. Confira, a seguir, os principais pontos da entrevista. 

A violência doméstica é um problema grave e diretamente ligado à saúde pública. Que ações estão sendo desenvolvidas para enfrentar essa questão?

Temos estruturado um colaboratório pelo fim do feminicídio, chamado Com Elas. Ele integra um conjunto mais amplo de ações da Fiocruz voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher em todo o país. No Distrito Federal, esse trabalho foi organizado como uma agenda coletiva e prioritária, articulada com movimentos sociais.

Como funciona esse colaboratório na prática?

A proposta é construir ações colaborativas com participação popular. Partimos de uma demanda dos próprios movimentos sociais, que buscavam unir esforços com a Fiocruz para desenvolver iniciativas de cuidado às mulheres no território. Hoje, já temos uma atuação mais consolidada na Estrutural, além de ações em outras regiões administrativas, com mais de 40 movimentos engajados.

Quais são os principais eixos de atuação do projeto?

O colaboratório está estruturado em três vertentes. A primeira é a formação, com qualificação das mulheres por meio de debates baseados na educação popular. A segunda é a pesquisa. E a terceira é a ação territorial, que envolve presença direta nas comunidades, escuta ativa e promoção de redes de cuidado. A ideia é fortalecer as mulheres e orientá-las sobre o uso de equipamentos públicos, como unidades de saúde e serviços de segurança.

Quando a Fiocruz traz profissionais da saúde para dentro dos territórios, dá a sensação de que as pessoas passam a perceber a saúde como uma construção coletiva. A entrada da instituição nesses territórios permite que a população também seja protagonista dos seus processos de saúde?

Com os 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, vejo que ali começou o movimento que culminou na estruturação do Sistema Único de Saúde (SUS). Foi a defesa de como a participação social faz parte do processo de construção da saúde. Saúde não é ausência de doença, mas é ter direito. Quando a gente observa o engajamento da participação social nas atividades, temos a dimensão de como a gente constrói uma política mais efetiva. Penso, por exemplo, em uma atividade que a gente tem de formação de pesquisadores e pesquisadoras populares aqui no DF. Ela começou em Ceilândia e na Estrutural. Lá, a gente conseguiu capacitar a comunidade para fazer ações de georreferenciamento. Por meio da identificação dos principais problemas e potenciais presentes nesses territórios dotados de história e memória, construímos soluções para a promoção da saúde. 

A população brasileira está mudando de perfil de forma muito rápida. Uma questão é o envelhecimento da população. Que tipo de ação vocês estão fazendo no sentido de cuidar, inclusive de forma preventiva, de quem está envelhecendo?

Na última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população idosa ultrapassou a entre 15 e 24 anos. Ela chegou a 15,4% da população. Um ponto forte da Fiocruz é o trabalho de forma articulada com outros ministérios. A gente defende a ação intersetorial. Temos feito uma parceria com a Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa. No ano passado, ocorreu a Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa e nós participamos na realização de uma conferência livre sobre educação digital, porque, hoje, essa população pode garantir seus direitos por meio do uso de ferramentas digitais. Os idosos também têm se tornado alvo de muitos golpes. Então, eu diria que a gente está trabalhando no âmbito da integralidade do cuidado e, nesse sentido, em como garantir ferramentas de educação para que a população idosa se sinta mais segura no acesso a esses diversos dispositivos. Destaco que essa foi uma agenda colocada como uma prioridade pela Fiocruz. Com isso, é importante que a gente olhe também para o SUS e para como ele se aprimora para acolher a população idosa dentro das suas necessidades. 

A Fiocruz tem o trabalho Ecoilê nos terreiros de matriz africana. Explique para a gente, por favor, como funciona esse trabalho.

O Ecoilê é um ótimo exemplo de trabalho no qual a gente integra diferentes políticas públicas. Em parceria com o Instituto Federal de Brasília, desenvolvemos ações de agroecologia. Quando a gente se insere nos terreiros, sabemos que é um trabalho de agroecologia com segurança nutricional por meio da produção de alimentos. Tivemos terreiros nos quais produzimos aproximadamente cinco toneladas de alimentos. Também foi feito o cultivo de ervas medicinais. O projeto inclui articulação com a comunidade, preservação dos saberes tradicionais, enfrentamento ao racismo e promoção da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. 

O mês de abril é dedicado à discussão de questões indígenas. Há algo previsto para essa próxima semana em relação a esse tema?

Vai ter o lançamento de uma exposição baseada em uma experiência que tivemos em Roraima, de combate à violação dos direitos dessa população. Ela estará disponível para quem quiser prestigiar a força de toda a população indígena. Trata-se de uma exposição fotográfica chamada Sopro Humanono: Yanomami e Ye’kwana sustentando a terra floresta, que será inaugurada na próxima segunda-feira (27/4), na Escola de Governo Fiocruz-Brasília.

Assista à íntegra da entrevista:

*Estagiária sob supervisão de Eduardo Pinho

 


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